Opinião
Um pequeno romance que retrata a solidão do homem face á morte, A Morte de Ivan Ilitch é um relato comovente do desespero de um homem que, tendo feito tudo na vida para agradar aos outros e proporcionar aos seus entes mais próximos uma vida boa, se vê abandonado à sua dor nos últimos meses da sua doença, questionando a justiça da vida que o castiga quando este tudo fez para a merecer repleta de felicidade.
Um retrato da sociedade russa de então (meados do século XIX), a nível do funcionamento dos cargos públicos, em que, mais que o mérito, tudo funciona a nível de conhecimentos e de cunhas, para todo o tipo de colocações e promoções. O aproximar e a morte de Ivan Ilitch, mais que provocar a consternação dos que lhes estão mais próximos, surge-lhes como uma oportunidade de promoção, devido à inesperada vaga no topo da cadeia de magistratura, desencadeando uma avalanche de promoções dos que estão colocados abaixo deste.
De todos os que aparentemente lamentam a doença e morte de Ivan Ilitch, só um único ser tem por ele verdadeira compaixão e tristeza, enquanto que todos os outros disfarçam com dificuldade o mal-estar provocado pela prolongada doença que tarda em definir o futuro de todos, inclusivé a própria família - todos têm algum interesse material em que Ivan Ilitch morra ou sobreviva, mas ninguém tem verdadeira compaixão por ele, e pelo seu sofrimento, chegando a culpá-lo por tudo o que lhe está a acontecer.
Todo o consciente esforço de Ivan Ilitch de encontrar uma explicação para o sentido da vida, com a morte a avizinhar-se cada vez mais próxima, com toda a sua angústia em encontrar os erros que cometeu e que o levaram a encontrar tão triste destino, o desespero de constatar a solidão em que viveu toda a sua vida, iluminada pela sua doença, é um pungente retrato da eterna procura de felicidade de todo o ser humano, que, numa situação extrema, face á morte, abandonado por todos, descobre a poucos minutos da sua morte tudo aquilo por que procurou e que lhe permite morrer em paz.