Opinião de Leitura
Molloy Molloy

Autor: Beckett, Samuel

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Opinião

Molloy e Moran, dois personagens, duas histórias distintas em seus respectivos capítulos, personagens aparentemente diferentes mas que se confundem ao ponto de nos interrogarmos se não serão ambas apenas uma única personagem.
Molloy acorda no quarto que era da sua mãe, assim começa o primeiro capítulo. Numa sucessão de devaneios mentais e situações pessoais extremamente caricatas, roçando o ridiculo e o hilariante, mas perfeitamente consistentes na psicologia conturbada de Molly, este descreve num diário-monólogo uma série de situações devidamente encadeadas que sucedem na sua vida, uma sucessão de acontecimentos inverosímeis, que, por mais que o leitor tente encontrar nesses uma explicação racional, não o consegue, e acaba por se deixar envolver e até partilhar muitos dos pensamentos de Molloy, se bem que as suas acções não tenham, muitas vezes, qualquer sentido, até para ele próprio.

Com Moran inicia-se um novo capítulo, em que o elo de ligação com o primeiro é o facto de ter sido entregue a Moran o trabalho de entrar em contacto com Molloy, embora sem conhecer o objectivo concreto desse contacto. Aparentando ser uma pessoa «normal», ao contrário de Molloy, a pouco e pouco essa imagem vai-se desvanecendo, e a viagem de Molloy em busca de sua mãe (no primeiro capítulo, dedicado a Molloy), confunde-se com a viagem de Moran em busca de Molloy, por todos os traços comuns de pensamentos sem sentido e devaneios mentais que ambos têm, já sem falar nas acções absurdas que ambos cometem.
Chegará Moran a encontrar Molloy ?

Sendo extremamente difícil uma tentativa de catalogação ou classificação deste romance em 2 actos, este expõe-nos, um pouco à semelhança dos monólogos psicológicos vertiginosos dos personagens de alguns romances de Dostoievski, embora com Beckett se assista a um estilo mais elaborado e refinado, sem qualquer tipo de tabus em termos da descrição de pensamentos completamente execráveis e abomináveis para as pessoas mais sensíveis (reflectindo também uma maior liberdade em termos literários, fruto de uma maior abertura da sociedade no século XX, que Dostoievski não tinha no século XIX), até que ponto pode o ser humano chegar no irracional do seu pensamento, se deixasse que os seus pensamentos loucos mas fugazes (que todos nós temos em abundância, em maior ou menor grau) se sistematizassem de uma forma contínua transformando-nos assim em presas de nós próprios, descobrindo-nos talvez mais a nós mesmos, mas perdendo o sentido da realidade da nossa vida no seu todo e, principalmente, da nossa vida em sociedade.

Assim, poder-se-ia dizer que, como síntese da filosofia de Beckett em Molloy, este mostra-nos a existência sem sentido da nossa vida - o solitário e contraditório esplendor da existência humana - mas fá-lo num registo mais cómico do que trágico, que acaba por suavizar a abordagem desta temática ou até de suplantar a sua premissa inicial, pela abordagem literária que tem no seu romance.

Ainda, nota-se um esforço premeditado de Beckett em esvaziar o romance dos seus padrões habituais, confundindo por completo o leitor - enredo, situações, personagens - e ainda assim mantém o leitor interessado e motivado. Sem dúvida um talento exemplar, original (apesar de alguma semelhanças com Joyce e Kafka) e único, indiciador das razões que o levaram a receber o prémio Nobel.

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