Opinião
Um enredo sem linha de rumo preciso navega num tempo sem definição, ondeando entre memórias e prenúncios, desprezando a linearidade, a lógica. Respira-se o desprezo pelo concreto, a recusa do próprio tempo.
O simbolismo, intenso e sempre presente, enreda-se permanentemente numa linguagem barroca, de formas por vezes sublimes mas nunca frívolas. Jogos de palavras, simples prazer da escrita e da leitura.
Um grito colectivo de revolta: uma família apodrecida pela América da falsa prosperidade, rodeada de negros acorrentados à humilhação de ter nascido. Personagens enlouquecidas, devassas, horríveis, infelizes, perdidas num vazio de humanidade. E a Disley… a criada negra desgraçada e feliz… normal.
Benji é louco, Jason alucinado, Quentin lunático, e um bando de pretos. Faulkner constrói assim um quadro quase sem nexo, quase sem sentido, como a vida.
Quando chegamos ao fim as estórias ganham, finalmente, forma e sentido. Mas nessa altura fica-nos na mente a frustração de não haver mais páginas… como se todos os Compsons tivessem morrido de súbito. Apetece então voltar ao início… como na vida: uma circunferência que nunca se fecha e assim se transforma em espiral… perpetuamente… sem tempo…