Opinião
Fosse a morte a puta, e Sabbath teria sido o mais entumecido e saciado "fantoche" dentro da melhor de todas as putas; como todos os seus atrevidos dedos, um por um, na suavidade envolvente de uma luva. Sendo a puta, afinal, a vida, Sabbath não teve como escolher, pagou-lhe, e foi dentro dessa que viveu as tragédias e comédias de homem; e ela, impaciente e fria, sem qualquer tipo de compaixão, muito menos a ternura de um desejo, finda a função, exigiu simplesmente que ele saísse dela.
Roth convida-nos a entrar no magnífico e ousado espectáculo de Sabbath; nós, os desmemoriados dos sonhos sonhados dormindo, nós os fantoches encerados de moralidades com polimento de cerdas e penugens, nós os arrumados na prateleira apropriada e protegidos pelo véu. E ali, tão perto de Sabbath, justo ao alcance dos seus exímios dedos, seremos tão audazes, tão desprotegidos e seduzidos que nos deixemos tocar, desabotoar e desnudar?
Ah! Mas o espectáculo é de Sabbath, não é nosso; ele sim, representa; nós só ali estamos na qualidade de público e fantoches mais ou menos participativos.
O estilo narrativo de Roth tem tanto de desartificioso e de fácil leitura como tem de densidade, de ironia, de despudor; as suas personagens têm muito de fantástico, de libertador, de amoralidade, de lascívia, mas também de real, de conflituosidade, de sombras, de medos, de tão imensamente humanas. Roth patenteia, especialmente em Sabbath, toda a sua prodigiosa lucidez, pragmatismo e eloquência, muito embora não existam personagens desinteressantes neste livro. E é, sempre, um romance de personagens muito mais do que de ambientes, época, cultura, sociedade.
Sai de mim, dizia-lhe ela...
Excerto
... "E sem ninguém para o matar a não ser ele próprio.
E não era capaz de o fazer. Não podia morrer, porra. Como podia partir? Como podia ir-se embora? Tudo quanto odiava estava ali."