Opinião
Um pequeno livro cujas páginas e parágrafos se desdobram em mundos infinitos, dentro de nós próprios. Isto se poderia dizer também de outros livros de Clarice Lispector, a escritora (e escritor) com maior capacidade de introspecção existencial que jamais li, mas é impossível não o mencionar como abordagem de opinião a este livro.
Trata-se, como o titulo indica, da narrativa de um processo de aprendizagem, uma aprendizagem existencial em busca da total harmonia do ser humano face à sua própria condição e face ao mundo que o rodeia. Lóri, professora de escola primária, conhece Ulisses, professor de filosofia, homem que já está muito além num percurso de harmonia total com o mundo que o rodeia. Lóri sabe que Ulisses é o homem que ela pretende, e que o todo o seu passado, toda a sua experiência de vida, pouco valem face ao desafio que é conseguir deitar fora todas as suas falsas defesas, conceitos e preconceitos face ao mundo, e entender-se a si mesma e à sua existência como ser humano, aceitando todos os seus aspectos por completo, sem receios nem sentimentos de culpa. E que, só conseguindo atingir esse objectivo, poderá valer a pena ter uma relação amorosa com Ulisses.
Lóri encontra-se várias vezes com Ulisses, e Ulisses vai ajudando-a, mais com pistas do que com verdadeiras lições, no percurso, que, segundo Ulisses, só ela o pode fazer. E Ulisses só a poderá aceitar quando Lóri se sentir pronta para a relação amorosa com ele, que significará o completar de todas as dimensões da existência humana.
Muitas introspecções, ao bom estilo de Clarice Lispector, são feitas por Lóri, intercaladas com fugazes encontros de conversa com Ulisses. Muitas coisas descobre, os seus receios vão-se afastando a pouco e pouco, lentamente se vai harmonizando com a sua própria existência plena como ser humano, quebrando vários tipos de tabus com que o ser humano se depara quando se questiona sobre a sua existência, ao nível de formas de pensar, percepções, sentimentos, comportamentos e acções.
A harmonização com o mar e os elementos, com o silêncio, com Deus como entidade agregada a si própria; a aceitação da dor; o identificar-se ela própria como o seu maior obstáculo no percurso que tem que percorrer; englobar a impersonalidade soberba do mundo na extrema individualidade do ser, num único ser; aceitar e respeitar os lados mais negros do ser humano (como a violência); o descobrir do verdadeiro fruto que está dentro de si própria, através da analogia com a própria natureza. Estes são alguns dos muitos aspectos com que Lóri se depara nas suas introspecções e acções, reconstruindo-se a si própria num ser humano pronto a viver a vida em plenitude, sem quaisquer limitações.
Não é um livro fácil de ler, exigindo uma disponibilidade mental enorme uma vez que é necessário, a cada capítulo (de 3 ou 4 páginas), uma reflexão por parte do leitor para que possa acompanhar as introspecções de Lóri. Ainda, entender o percurso de Lóri exige ainda alguma releitura, sendo este processo um pouco moroso, tornando a leitura muito lenta, mas extremamente gratificante. Aliás, este livro nunca se pode dar como lido. Basta voltar a abri-lo, reler um capitulo, que nos faz ficar a pensar em outros novos aspectos das reflexões de Lóri que ainda não tinhamos pensado, fruto da larga amplitude de horizontes que Clarice Lispector, de forma diversificada e numerosa em termos de temáticas, nos vai presenteando ao longo de um livro.
Um livro único que, em termos da obra literária de Clarice Lispector, se pode comparar a "A Maçã no Escuro", visto que este também está baseado num percurso de aprendizagem, mas noutros contornos; talvez ainda mais difícil, tratando-se de alguém, que, sozinho, re-constrói todo o seu ser após um crime que cometeu.