Opinião de Leitura
Budapeste Budapeste

Autor: Buarque, Chico

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Opinião

José Costa é um escritor, mas que não publica nada em seu nome. Escreve para os outros, tendo, com o seu colega Álvaro, aberto uma agência que executa trabalhos de escrita para quem precisa, nomeadamente a nível de discursos e autobiografias. Vive no Rio de Janeiro, é casado com uma apresentadora de noticiários de televisão, Vanda, e têm um filho chamado Joaquim.
José Costa participa regularmente em convenções de escritores anónimos, onde estes falam de obras publicadas em nome de outros mas que são de sua autoria. Ao voltar de uma dessas convenções, em Istambul, o avião onde viaja é obrigado a uma paragem forçada em Budapeste, onde permanece uma noite. José Costa fica interessado pela língua Húngara, e o consequente desejo de um dia voltar a Budapeste.

Esse dia acontecerá, numa viagem em que Vanda, que aparentemente o iria acompanhar, decide mudar de ideias e viaja para Londres. José Costa acaba por ficar em Budapeste sozinho, sem saber falar a língua, mas, na sua curiosidade de aprender a aprender, conhece Kriska, que lhe começa a dar aulas de húngaro, realçando a dificuldade da língua que não se aprende pelos livros. Com muito esforço e dedicação, e, sobretudo, depois de voltar segunda vez a Budapeste, José Costa consegue aprender a fundo a língua húngara, começando mesmo a escrever e a corrigir textos.

Este é o contexto principal da história deste romance, dividido entre duas cidades e duas culturas, nas quais José Costa nunca se consegue integrar por inteiro, flutuando num universo só seu, que o leitor apreende e compreende com facilidade, através da excelente prosa de Chico Buarque que nos presenteia com uma leitura aparentemente leve, mas extremamente rica e agradável, com um estilo muito próprio que foge da habitual previsibilidade de muitos outros escritores, mantendo o leitor atento e a encontrar constantemente novos ângulos de interesse tanto no enredo da história em si, como em muitos pequenos detalhes e pensamentos de José Costa e dos comportamentos dos personagens que interagem com ele. A imprevisbilidade, é, de facto, uma das maiores virtudes deste romance, realce injusto se o compararmos com muitos outros aspectos riquíssimos que este romance tem, prendendo o leitor da primeira à última página, e que, quando parece que o final do livro se apresenta com poucas perspectivas de ser interessante, Chico Buarque consegue compor de forma natural o fim da história, ao mesmo nível (elevado) que esta teve ao longo dos seus vários capítulos.

Voltando ao enredo da história, José Costa consegue, tanto em Brasil como na Hungria, dois grandes sucessos através de clientes que pediram trabalhos seus e que foram editados nos seus nomes, Kaspar Krabbe, uma auto-biografia, no Brasil, e Kocsis Ferenc, um livro de poesia, na Hungria. No entanto, nunca ninguém, em particular Vanda e Kriska, reconheceram o seu trabalho, revelando-se estes autênticos estigmas que contribuíram para que o seu isolamento e abandono fossem ainda maiores.

José Costa representa uma vida de fatalidades, a vida de um homem inseguro que procura o seu caminho, mas uma vida romântica, um homem levado pelos seus impulsos e pelas circunstâncias que o envolvem, procurando e ao mesmo tempo aceitando pacificamente tudo o que a vida lhe proporciona, não se prendendo por nada nem por ninguém mas recebendo a mesma atitude pelas pessoas que convivem com ele. Este desprendimento, este viver sem peso de viver, buscando apenas o imediato mas sem qualquer sofreguidão, aberto a tudo o que o mundo lhe revela mesmo nos seus mais estranhos aspectos (a cena dos dois jovens alucinados no seu quarto de hotel em Budapeste é revelador disso), e aceitando as fatalidades que lhe surgem (como por exemplo, estando semanas e semanas num quarto de hotel, sem dinheiro para pagar, e sem se preocupar com isso) tornam José Costa num exemplo de vida na sua plenitude, de um ser humano que foge da vida sedentária e dos objectivos materialistas e sociais que regem a maioria das vidas das pessoas, mostrando a verdadeira riqueza da vida humana com os sentidos e sentimentos totalmente disponíveis para aceitar tudo o que a vida pode proporcionar.

No meio de tantas fatalidades e imprevisibilidades na sua vida, no final José Costa encontrará o seu caminho - de forma natural, o seu destino altera-se por completo, e aquilo que, talvez inconscientemente, José Costa tanto desejava, acaba por se cumprir.

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