Opinião de Leitura
Livro das Ilusões Livro das Ilusões

Autor: Auster, Paul

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Opinião

"O Homem não tem uma única e mesma vida, tem várias, uma sucessão de segmentos unidos entre si, e essa é a sua miséria." - Chateaubriand

A citação do escritor, transcrita no livro, considera que o Homem no percurso da sua vida tem necessariamente várias vidas. É através desta condição humana que nos abre um ponto de vista diferente, que se poderá conhecer toda a essência do romance. A relevância deste romance é manifesta, tendo em conta a sucessão de vidas que cada personagem tem. Todas as personagens no Livro das Ilusões estão dotadas de várias vidas, todas elas com um fim e um recomeço. Os finais de cada vida transformam o Homem num ser angustiado, pois cada fim quase que obrigatoriamente terá de ser trágico.

A condição humana é colocada em evidência no Livro das Ilusões. Através de acontecimentos trágicos que ocorrem em duas personagens principais – David e Hector – o autor personifica as formas como o Homem vive com as mudanças repentinas na vida. Existem diversas formas de lidar com esses mudanças. São elas as tentativas de suicídio, o álcool, as drogas e outras mais formas de decadência. Mas como o narrador refere no seu livro, o Homem terá de entrar na decadência para recomeçar uma vida nova. É a forma que ele tem de confrontar-se consigo mesmo, com a sua imagem, quando se olha no espelho e vê que está vivo, embora sem vida. Pois o fim de uma vida até ao recomeço de outra é estar morto à espera de algo que rejuvenesça novamente a nossa humanidade. O álcool, as tentativas de suicídio não são mais do que pretextos, ou uma fuga para sairmos desse estado "zombie”.

No romance está implícito que o destino (se é que ele existe) não é modificado pelas acções humanas. O Homem move-se segundo pretextos ou sinais insignificantes que observa no decorrer do seu caminho. A efemeridade da vida é um conhecimento adquirido do narrador e que nos é transmitido. Ao longo do texto, é-nos explicado que nada na nossa vida tem sentido, simplesmente acontece diariamente. Existe sempre uma sucessão de acontecimentos efémeros que poderão mudar radicalmente o percurso tomado inconscientemente certo por cada um de nós. Essas alterações poderão ser trágicas, neste livro quase todas são trágicas; episódios repletos de emoções fortes, onde o pensamento no futuro desaparece e o passado esquece-se, ficando só o presente como o tempo da acção.

O tempo da narrativa centra-se no presente, em David. Entretanto, o narrador faz um regresso ao passado para explicar o percurso de vida do realizador de filmes mudos. A vida de Hector é assim desvendada passo a passo nesta longa regressão. David, nos filmes de Hector, vai-lo caracterizando. No final da história, a morte e a destruição de todos os que estavam ligados à vida de Hector parece fictícia e David detecta incompatibilidades com a história que lhe é transmitida durante a viagem de avião até ao Novo México. No fim, David tece uma nova versão dos factos, onde tudo é mais verídico. Com esta reconstrução da realidade, David dá-nos o ponto de partida para outro dos marcos da história: a tese de que nada é verdadeiro, e por conseguinte, o senso comum e a realidade aparente poderá ser uma imagem construída por nós, mentalmente.

Assim, outro dos destaques desta obra, relativamente à condição humana, é o princípio do Niilismo. O Homem recria a realidade, mente compulsivamente como forma de não assumir aos seus actos, como escapatória ao seu destino trágico. Não será esta perspectiva facilitadora do ponto de vista emocional? No decorrer da acção Hector, naquela altura Herman, observa a realidade com um olhar distante, como se ele estivesse intacto de qualquer coisa que pudesse acontecer. Porquê? Ele deixara de viver, de acreditar em algo que o fizesse chorar, rir, enfim, sentir. Seguia arduamente um caminho que o levava à penitência dos seus actos no passado. Já que continuava vivo ao menos que fosse a sofrer, a sua única forma de conseguir sentir e de permanecer vivo.



A história é rica em vários exemplos de fins de vida e recomeços da mesma. Começa com a trágica morte da família de David. Um fim horrível, descrito como um vazio que se apoderou da personagem. Ora, “O álcool protegia-me de um excesso de sentimento, mas, ao mesmo tempo, privava-me de toda e qualquer noção de futuro, e quando um homem deixa de ter expectativas, é como se estivesse morto.” O álcool foi para David a escapatória à morte. Apesar de ter morrido interiormente não conseguiu matar-se. Ele vivia num estado de decadência, um “zombie” que deambulava pela casa remexendo nas recordações da sua família. O avião que ele mesmo tinha imposto à sua família para ir viajar, acabaria por se despenhar, e com ele, levado toda a sua família. Um acontecimento algo semelhante a este repete-se na obra, quando Brigid O’Fallon, amante de Hector, é assassinada acidentalmente por Saint John, a sua esposa. Hector Mann tem uma reacção diferente de David, personagem narrada na primeira pessoa pelo autor. Aqui, Hector assume a culpa de toda este decurso de acções e, por conseguinte, acaba por se penitenciar durante anos. Afinal perde um filho, dois amores e ainda a sua vida profissional. É uma reacção que tem uma comparação com a de David. Ambos desejam o suicídio, mas nunca o conseguem finalizar. Não temem a morte mas não conseguem finalizar o acto com as suas próprias mãos, disparar uma arma que traga a sua morte.


Após um longo período de decadência, ambos os personagens vêem surgir no seu caminho um percalço que os arrancaria à morte.

David, ao acaso do destino viu um filme de Hector Mann: “aconteceu-me ver na televisão um excerto de um dos seus velhos filmes e essas breves cenas fizeram-me rir.” Essa particularidade de o fazer rir outra vez provocou-lhe um interesse na obra de um realizador desconhecido. Além disso, descobriu ainda que a sua vida era enigmática e, com o Jackpot do seguro de vida da família que tinha recebido, poderia ocupar o seu tempo a ver os filmes de Hector que, naquela altura, estavam espalhados pelo mundo. O verdadeiro interesse dele não eram os filmes, ou o realizador. O motivo de tanto empenho na elaboração de um livro sobre os seus filmes reduzia-se à simples ocupação de tempo. “Era um trabalho lento, talvez mesmo um trabalho sem o menor significado, mas a verdade é que exigiu toda a minha atenção durante nove meses seguidos, e, como eu estava demasiado atarefado para poder pensar noutra coisa qualquer, provavelmente impediu-me de enlouquecer.” Com este seu novo e único objectivo conseguiu abandonar a sua decadência.

Já o percurso de Hector Mann é mais enredado. Primeiro penitencia-se por tudo o que fez anteriormente e, como se não bastasse, para ver o seu desaparecimento bem sucedido, altera o seu nome para Herman Loesser. Existe uma nova descoberta do Eu no caso de Hector. De realizador passa a ter novas profissões como segurança, como profissional de sexo e o caso mais surpreendente, é o facto de ele ter trabalhado para a loja do pai de Brigid. Lá conheceu a irmã de Brigid, Nora O’Fallon. “Ela era um espírito eminente, uma mulher acima de todas as outras, e só o facto de a ter conhecido naqueles breves meses em Spokane bastara para alterar para todo o sempre a sua vida.” Nora ensinou Hector, nesta altura Herman, a interpretar os livros que lia, a corrigir o seu sotaque espanhol e, acima de tudo, ensinou-lhe a cativar o gosto pela leitura. Nora seria sempre o símbolo de perfeição na sua vida e terá sido ela que o retirara da solidão e da penitência em que se encontrava. Também ela se tentou suicidar depois do desgosto que teve quando soube que ele partira. Neste caso, o ser humano é mais fraco. Após uma perda de uma pessoa que amamos, as verdades que criámos sobre o mundo caem por terra. Outrora, havia uma pessoa e a partir de agora essa pessoa deixara de existir, acabando por levar as verdades consigo e apenas deixando mentiras na carta que lhe foi dirigida. O realizador, nessa carta, tentou ser o mais áspero possível. Tendo como fim acabar toda aquela relação de amizade que se tinha criado, de forma a não dar azo a que esperanças fossem criadas. Agora Hector sentia-se arrependido de alguma vez ter tido a ideia de Stokane.

David conheceu a vida de Hector através de Alma. Ela é a personagem que causa uma devoção em David. Estas duas personagens embatem uma na outra precipitada e calculadamente. Cada um com as suas vidas passadas, com o seu passado atormentado. “Nada de culpas, nada de perdões, nada de balanços sobre quem fez o quê a quem.”, David caracteriza desta forma, embora inconscientemente, a relação entre os dois. Na condição humana há coisas que são de difícil explicação. David e Alma, no seu primeiro encontro, deixam-se guiar como animais, para quem as intenções, as consequências, deixam de existir. Só o presente interessa e o culminar desses princípios “nietzscheanos” é quando Alma entra na cama de David e os dois corpos se entregam naquela noite.

A personagem Alma é a que tem o carácter humano que representa melhor a condição humana neste livro. “A marca de nascença era o teste da humanidade dos outros. A marca da nascença media o valor das suas almas, e, se eu apurasse as minhas capacidades, seria capaz de ver o íntimo dos outros e saber que género de pessoas eram.” Esta marca de nascença, que lhe cobria metade da cara, demonstra que todo o ser humano é único e diferente. E os que são mais diferentes são mais humanos, conclui o narrador. Alma é uma personagem que é misteriosa e não se consegue antever as suas acções ou sentimentos na história. Até David, o seu amante, diz a dado momento que a desconhece, portanto Alma continua sempre a ser a personagem misteriosa, mesmo após a sua morte. A causa da sua morte foi a destruição do seu livro que demorou seis anos e meio a ser escrito. Frieda, já completamente irracional e num estado de loucura, destrói tudo o que se relacione com a vida passada de Hector Mann. “Alma ficou como louca, desatando a invectivá-la com toda a ferocidade de que era capaz, rompendo numa explosão demente de berros e gritos histéricos.” E após a histeria acaba por matá-la com um simples empurrão. O sentimento de culpa de a ter matado e a destruição de sete anos de vida acabam com a sua vida, suicidando-se com Xanax, que tinha comprado para David andar de avião. “É o esquecimento que eu procuro, doutor, não a morte. (...) Estarei lá, mas não estarei lá, e não estando lá, estarei protegido.” Ele não tinha medo da morte, ele ansiava a morte mas ao mesmo tempo tinha esperança. Contudo, Alma tinha perdido a esperança, afinal tinham sido sete anos da sua vida que se destruiriam em menos de uma hora. É irónico como o ser humano se dedica tanto a um trabalho ou a um amor e no fim este acaba por se destruir ou ser destruído. Alma não aguentou, matando-se com vinte e cinco comprimidos de Xanax. “Demasiada Esperança. Demasiada decepção. Não tenho resistência para tanto. No que a mim me toca, a história acabou.” E assim acabou o relacionamento de oito dias entre David e Alma. Curioso facto da vida dos dois era Alma usar o mesmo perfume que a falecida esposa de David usava - Chanel Nº5. Quando a sua família morreu achava que “o perfume parecia trazê-la de volta de um modo mais vívido, parecia evocar a sua presença por períodos de tempo mais longos.” Alma trouxe-lhe novamente a vida que ele nunca mais perdeu, no final da história transparece a ideia que a seguir a Alma nunca mais entrou na decadência.

A decadência é o meio que as personagens utilizam para se afastarem da insanidade mental. O ser humano precisa de se penitenciar, de reflectir sobre as suas acções. Não somos nós que não sentimos as consequências dos nossos actos, ou dos actos dos outros. As tragédias sucedem-se umas às outras. Nesta história é como um ciclo sem paragens, só a morte pára a “miséria” humana.
Esta breve recensão ficaria incompleta se a personagem Frieda não fosse aqui analisada. Frieda é a personagem que nos dá incertezas quanto aos valores das suas acções. David, já depois de todos terem morrido, teoriza sobre a hipótese de que “Frieda avançou pelo corredor, como uma sombra silenciosa, entrou no quarto de Hector e sufocou-o com uma almofada.” E ele fica convencido de que ela fez “isso por amor.” Na história, a personagem Frieda, última mulher de Hector, representa uma mulher amargurada com a sua vida. A história de ter de destruir todo o seu trabalho, todas as recordações da vida que teve com Hector, deixou-a num estado insano. No fim, as suas acções são insensatas e tornam-se interessantes os seus motivos. O casal viveu toda a vida isolado numa quinta, gastando a fortuna da mãe de Frieda. Com uma única finalidade, produzir filmes e viverem sossegadamente um com o outro. Mas acabou por ser isso que os endoideceu. A ideia de não divulgarem o seu trabalho a ninguém causou-lhes uma agonia interior difícil de explicar. E depois deste acordo ser celebrado, impunha-se que o respeitassem sendo a última acção de Frieda na história e com sucesso. Classificar-se-á como estranho o facto de produzirem cerca de 12 filmes e nunca os mostrarem a ninguém. Contudo, o seu objectivo era não ficarem insanos por viverem numa terra sozinhos sem nada para fazer. O seu objectivo era exclusivamente esse e por isso tomaram esta decisão, que consideramos algo egoísta. Mas concentraram-se apenas no prazer que o acto de produzir filmes lhes dava. Ao contrário de outros, que supostamente teriam mais prazer no que recebiam ao fazer filmes. Aí está uma prova da grande paixão de Hector pelo cinema. Ele morreria senão continuasse a desempenhar o seu trabalho e Frieda apercebeu-se disso. O Homem quando fica incapacitado de fazer o seu trabalho, de fazer as tarefas que gosta de fazer, sente-se inútil, infeliz. Quando esses sentimentos o absorvem, é uma passo para a decadência e para deixar de sentir o desejo de viver. Por isso a ocupação é tão importante e foram as ocupações que salvaram David da sua morte, do seu pensamento constante na sua morte, dando-lhe forças para a evitar, para ainda conseguir ter um pouco de esperança no amanhã.


O grande ensinamento deste livro é o facto de o ser humano reger as suas acções pelos seus impulsos. Em todo o romance, nenhuma personagem pára um segundo para reflectir sobre o que irá fazer. Cada um age sem pensar, simplesmente confia em si mesmo e segue os seus instintos. Observe-se o caso de Hector e Brigid, sem muito pensarem encontravam-se todas as semanas. Até que se cria um triângulo amoroso e Hector é obrigado a decidir-se. As reacções de ambas as extremidades desse triângulo são impensadas. E isso levou sempre à tragédia de todas as personagens, não pensavam no futuro. Aliás, só David pensou no futuro em relação ao que tinha acontecido a Hector. Mas pensar no futuro não era acto que lhe agradasse, assim como a todas as outras personagens. Existe uma fixação no presente em todo o livro. As acções desenrolam-se freneticamente e a história apenas fica com um ritmo moderado já no fim, após a morte de Alma e a destruição de todos os vestígios de Hector.

A mensagem que podemos reter de “O Livro das Ilusões” é que a decadência é uma forma positiva de não se morrer, é sinal que algo de novo vai surgir na vida, ou seja, um recomeço aproxima-se. É esta a visão optimista que o narrador, David, transmite em toda a sua obra. Apesar de haver momentos terríveis em que parece que o mundo desmorona, posteriormente surge uma sucessão de acontecimentos que o reconstrói.

A condição humana é tratada na obra de uma forma sublime, pois são analisados aspectos profundos de desejo que o senso comum impõe controlar. Neste obra não existe a sociedade, sobretudo existe o eu, e é esse eu quem controla a acção, que transforma a realidade, segundo os seus impulsos.

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