Opinião de Leitura
Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

Autor: Lispector, Clarice

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Opinião

Há um livro que pede para ser escrito. Na nota introdutória, Clarice afirma que humildemente tentou escrevê-lo. Mais do que um artifício de sedução, ou receio das críticas, esta nota revela a luta que é para Clarice Lispector escrever cada livro: narrar o indizível, os pequenos nadas, sem cair no vazio e na ausência.
Sintomática, a abertura do livro faz-se com uma vírgula. Entendida como demonstração da dificuldade que Clarice teve em agarrar a narração, após penosos meses de escrita infrutífera, tem o efeito de tornar o leitor um invasor, que cai no meio da história, sem preparação, sem coordenadas, obrigado a saltar em andamento.
Esta aprendizagem tem por plano de fundo o relacionamento entre Lóri e Ulisses, em que ela está apaixonada por ele, mas este atrasa a evolução do relacionamento para que possam aprender previamente – a amar, a ultrapassar a ausência e o silêncio. Enquanto se espera a construção da nova realidade, há o olhar sobre a “mediocridade de viver”; a vida mínima, composta essencialmente pelo não ter e pelo medo de não poder ter, apenas colorido pelo desejo. Sobreviver é ter de enfrentar a angústia silenciosa da ausência.

«não é mesmo com bons sentimentos que se faz literatura: a vida também não.»
A literatura de Clarice faz-se de vida, de realidade crua e dura. Neste livro expõe a sua escrita, o seu estilo, e as razões porque a sua obra é ímpar, apesar de por vezes esquecida e incompreendida. Nome grande da literatura universal, a sua total consagração não poderá ser adiada por muito mais tempo. Mas são muitas mais as justificações desta leitura, muitas mais.

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Este livro é o grande destaque da Leitura Partilhada em Outubro de 2004

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