Opinião de Leitura
Vernon Little, O Bode Expiatório Vernon Little, O Bode Expiatório

Autor: Pierre, DBC

Leitor:

Opinião

Um retrato da América através dos olhos de Vernon Little, um miúdo como os outros, duma aparentemente normal cidadezinha do Texas. Mas, a vida da comunidade e deste adolescente de 15 anos é alterada brutalmente pelo massacre de 16 estudantes. O assassino é Jesus, o melhor amigo de Vernon, que após ter disparado contra os colegas se suicida. A comunidade em choque procura uma explicação e um bode expiatório (um ‘skate’ goat como lhe chama Vernon) para o sucedido. Pela sua proximidade com Jesus, e pela sua capacidade para estar nos sítios errados nos momentos errados, Vernon é logo tomado por cúmplice e vai ver-se envolvido numa série de episódios rocambolescos.

Com uma linguagem muitas vezes obscena, num registo directo e, por vezes desconexo, próprio de um narrador de 15 anos e não muito dado a conversas, o relato de Vernon Little agarra-nos desde a primeira página. E mesmo que não seja um romance grandioso impele-nos irresistivelmente até ao fim, para conseguirmos perceber o que de facto se passou naquele dia fatídico e qual o papel que Vernon desempenhou. A escrita irónica e as observações mordazes são tantas que são muitas as gargalhadas que estas páginas nos arrancam.

Nesta história passeiam-se muitos dos estereótipos da América provinciana e retrógrada: Donas de casa bisbilhoteiras a quem só interessa as próximas aquisições; os polícias locais desejosos apenas de apanhar alguém a quem possam culpar; os jornalistas abutres que fabricam os acontecimentos e as versões consoante as audiências; um sistema judicial com os seus sinistros protagonistas – advogados, juizes e especialistas. Neste Texas de Vernon as pessoas parecem estar sempre a comer, e sempre a experimentar uma nova dieta, o restaurante de fast food desempenha um papel fulcral na vida da cidade e todos querem ser estrelas de televisão, nem que por escassos minutos. Como Vernon acaba por perceber todos estão desesperados por agarrar-se a qualquer coisa que os faça esquecer a solidão e a insuportável mesquinhez da vida que levam.

Comentários

DBC (Dirty But Clean) Pierre pseudónimo do australiano Peter Finlay, Booker 2003.

Excerto

- Sr. Little, percebe porque está aqui?
- Acho que sim.
- Muito bem. Deixe-me explicar-lhe que a minha missão é descobrir a verdade. Antes que pense que isso é uma coisa difícil de fazer, recordo-lhe que, estatisticamente, só há duas grandes forças que governam este mundo. Sabe dizer-me quais as duas forças subjacentes a toda a vida que existe neste mundo?
- Hum... a riqueza e a pobreza.
- Não são a riqueza e a pobreza.
- O bem e o mal?
- Não. [i]Causa[/i] e [i]Efeito[/i]. E, antes de começarmos, quero que diga as duas categorias de pessoas que há no mundo. Sabe dizer-me quais as duas espécies de pessoas que está provado existirem neste mundo?
- Os que causam as coisas e os que sofrem os efeitos das coisas.
- Não. Os cidadãos e os [i]mentirosos[/i]. Está a seguir o meu raciocínio, Sr. Little? Está aqui?
Dah! Apetece-me dizer: “Não, estou no lago com a merda das suas filhas”, mas não digo. Tanto quanto sei ela nem sequer tem filhas. Agora vou passar o resto do dia a pensar no que devia ter dito. É uma merda.




Publicidade

Inspirações

Falar ao Amigo

Publicidade

© Copyright 2003-2025 Citador - Todos os direitos reservados | SOBRE O SITE