Opinião
Urbano Tavares Rodrigues escreveu a propósito deste livro: "um romance onde a invenção estilística e verbal é permanente". E como isso é brilhante e tão bonito.
Enigmáticas, duais, incertas e tão tumultuosas e inseguras no intento de uma alforria sem chancela, as principais personagens deste romance podiam ser as nossas, as dos nossos dias, se a vida fosse escrita com a riqueza inaudita de um bom contador dotado de um proverbial saber de esmiuçar particularidades e de as agregar na delícia do que é, depois e por nós, sentido primoroso. Isso, mas, também, se ainda inventássemos o país (a vida) para nele cabermos. Minguamos, suponho.
Uma fatia muito fina da intelectualidade urbana, com códigos linguísticos e hábitos próprios, afigura-se-nos como que cortada, entalada e ignorada, no imenso bolo anacrónico, que fede a terra, bafio, pratas e práticas burguesas, religiosidade, fado e um sibilar vernáculo.
Alexandra Alpha é um romance que, amiúde, apela à nossa audição, pela musicalidade e, também, pela inventiva de alguns anglicismos e galicismos; leva-nos ao riso, ora acerbo, ora jovial; regala-nos pelo insólito de algumas personagens (Opus Night é extravagância!); e toca-nos, enternece-nos.