Opinião de Leitura
Os Miseráveis Os Miseráveis

Autor: Hugo, Victor

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Opinião

A história comovente de um homem que, após um acto censurável cometido numa situação de extrema necessidade e desespero, e condenado a expiar por toda a sua vida a consequência desse acto, consegue, apesar de constantemente perseguido, concretizar o ideal de fazer o bem a todos aqueles que se atravessam na sua vida. Jean Valjean é o expoente do homem que, suportando todas as injustiças da sociedade, luta com extrema lealdade contra todas as adversidades, dando a todos sem reservar nada para si, e que nunca dá a cara para receber agradecimentos e louvores.

Estando todo o enredo centrado em torno de Jean Valjean, este não é único grande protagonista deste livro, que se passa no período entre 1810 e 1833, logo após a batalha de Waterloo e atravessando várias revoltas e lutas de barricadas em Paris. Época extremamente rica em acontecimentos históricos, cheia de convulsões sociais como corolário da Revolução Francesa, Victor Hugo traça com uma grande precisão vários acontecimentos reais, assim como um retrato dos costumes da época, das ideias e motivações que estavam em questão em todas as revoltas ocorridas durante o início do século XIX, assim como aspectos interessantes, e muito bem fundamentados do ponto de vista histórico, sobre várias temáticas relacionadas com o enredo do livro, como por exemplo a história dos conventos e o seu declínio, a história da importância da gíria na interpretação da evolução da sociedade, a história dos esgotos de Paris, etc.

Victor Hugo revela um grande pendor altruísta e moralista, contudo aberto a todas as mudanças ideológicas ocorridas nesse início de século, mas contemplando-as de uma forma pragmática dentro de um ideal de ser humano, que, sem ser perfeito nem nunca o poder ser, parecia caminhar de forma célere para a formação de um ser humano completo e consciente de todas as suas forças e fraquezas, atento e activo perante todas as grandes questões da vida e da sociedade, temente a Deus e solidário com o seu próximo.

Há grandes personagens neste livro, como o Abade que ilumina e muda toda a vida de Jean Valjean, exemplo de como um homem com grande poder na sociedade consegue manter-se fora de todas as tentativas de corrupção social, moral e política que normalmente atinge todos aqueles que exercem cargos públicos com algum poder.
Javert, o inspector da polícia que é uma autêntica sombra de Jean Valjean ao longo de todo o livro, exemplo de extremo rigor e cegueira perante a lei, inflexível ao máximo e sem o mínimo de complacência perante qualquer tipo de crime ou atenuante a este, é a imagem do homem implacável no cumprimento do seu dever, mas que, mais tarde ou mais cedo, irá consciencializar-se de que existe algo superior à lei, que, formada pelos homens, é tão (im)perfeita quanto eles.
Mário é o outro grande personagem deste livro, repartindo com Jean Valjean, embora em contextos diferentes, o ideal do homem que, apesar de todas as suas fraquezas, mantém a sua integridade perseguindo os seus ideais de vida, com extrema coragem e nunca fugindo às situações de perigo ou às adversidades que se lhe colocam.
Thénardier encarna a personagem má que nunca se há-de regenerar, apesar das várias oportunidades que lhe surgem, a prova de que nem sempre se consegue mudar o carácter de um homem quando este tem o mal impregnado dentro de si desde a sua nascença.

Outros personagens com muita importância para a completa caracterização da história de Paris nessa época existem, como por exemplo um grupo de jovens parisienses burgueses que discutem entre si as grandes questões sociais e que serão fatalmente apanhados nas lutas de barricadas, assim como um grupo de malfeitores que traçam o retrato do sub-mundo do crime de Paris.

A acção do livro, interrompida imensas vezes pelas dissertações de Victor Hugo, é extremamente empolgante e, apesar de muitas vezes parecer previsível, nunca o é, trocando constantemente as voltas ao nosso pensamento sobre o que se irá passar a seguir. Desta forma, e, sobretudo, nas últimas 200 páginas, o leitor fica preso de uma forma obsessiva à leitura do livro, ansioso por saber o que vai acontecer a Jean Valjean e a Mário, metidos numa barricada em que todos estão condenados à morte.

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