Opinião de Leitura
Viagem ao Coração dos Pássaros Viagem ao Coração dos Pássaros

Autor: Cachapa, Possidónio

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Opinião

Uma história mágica com um começo aparentemente simples e linear, apresentando Filipe e Evangelina, dois seres que se juntam e vivem numa casa no campo, com a sua horta, isolados do mundo, e que têm uma filha a quem Filipe decide chamar Kika. Filipe vive com o sonho de ir para a Venezuela, que concretiza sem dizer adeus às suas amadas, certo de ser a melhor forma de encontrar a sua felicidade, respondendo ao chamamento do destino.

O romance, ainda envolto numa aparente simplicidade, envolve-se pouco a pouco numa magia espiritual, centrada em torno de Kika, a personagem principal, a quem lhe aparece o seu anjo pessoal. Conforme Kika descobre, toda a pessoa tem o seu anjo, que, com maior ou menor sucesso, tenta ajudá-la a suportar as agruras da vida e, sobretudo, a limpar o que de mais obscuro e mau se passa dentro da sua alma. Kika teve a sorte e o azar de ter sido predestinada, pelo seu anjo pessoal, a ajudar as almas de todas as pessoas que lhe pedissem ajuda, vivas ou mortas. Depois de um idílio feliz nas aventuras com o seu anjo durante a sua infância, torna-se a consoladora das almas de pessoas que já morreram e que vagueiam no limbo sem terem ainda aceite a sua morte, e a salvadora das doenças físicas provocadas pelas mágoas das almas das pessoas vivas.

Kika domina tudo sobre as almas dos outros, mas não sobre si própria, o que se lhe traduz numa vida virada para os outros, e, por excesso de conhecimento dos outros, com uma incapacidade vital para amar um homem mais do que por fugazes instantes.

Pelo meio, o relato de uma pequena história trágica mas de uma beleza indiscritível, do homem-bomba e da mulher-trapézio, símbolo da inevitabilidade da procura do sonho e do assumir do mesmo até às últimas consequências, como fundamento para a realização da plenitude do ser passando pela interiorização de uma coragem que corte as amarras da aparente fatalidade do quotidiano, qual coração de pássaro que só terá certeza de que pode voar ao tentá-lo pela primeira vez.

Em suma, um romance em torno do tema da procura da própria alma e daquilo que faz sentido para cada um de nós, quase sempre diferente ou divergente de uns para os outros, em que todos nos condicionamos uns aos outros num equilíbrio que não existe pelo comprometimento negativo que cada um tem que dar aos outros ou à própria vida em si, geradora de mágoas e frustrações que permanecem muitas vezes silenciadas durante toda a vida e, quem sabe, depois da própria morte, por toda a eternidade - por faltar a coragem de um coração de pássaro.

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