Opinião de Leitura
Caranguejo Caranguejo

Autor: A., Ruben

Leitor:

Opinião

Ele e ela, este, aquele e a outra como personagens de um romance escrito ao contrário, sem numeração de páginas e em que os próprios capítulos se numeram de forma decrescente, do décimo ao primeiro, justificando o título do romance. Ele e ela como personagens principais, dois seres que, apesar de não terem nada a ver um com o outro, nos seus estilos de vida e nas suas expectativas, casam-se e vivem uma vida «normal», com uma certa subjugação conformada de ela por parte de ele, em inícios a meados do século XX.

Ele é um homem que vive a vida de forma egocêntrica, interesseira e ao sabor dos seus prazeres, sem quaisquer complexos de culpa numa sociedade regida pelos «bons costumes» da época, movendo-se ele num jogo de interesses e de conhecimentos de forma despudorada que rapidamente o levam a uma carreira de negócios de grande sucesso, a par de uma vida pessoal em que, mantendo a aura de uma família feliz como qualquer homem de negócios que se preze, vive os seus prazeres conforme os costumes da época, com a(s) sua(s) amante(s) e em outros encómios de homem com poder que sabe fazer mexer as suas influências.

Ela sempre teve, desde pequena, um ideal de vida mais sentimental e consciente da existência humana e das suas profundezas, que, tal como a personagem este, ambicionavam uma vida mais contemplativa e apreciadora de todos os pequenos e grandes prazeres da vida que escapam à maioria das pessoas. Ele conseguiu, através de toda a experiência de vida que acumulou, capturar a sua presa, indefesa perante os ataques elaborados de quem sabe exactamente o que quer e como o conseguir, não conseguindo este, perdido nas suas deambulações sentimentais, existenciais e apaixonadas, mas nada lúcidas, sequer uma pequena tentativa de tentar uma abordagem eficaz à sua grande apaixonada, ela, sempre envolto nos seus pensamentos de receio e hesitação.

Um retrato da vida humana centrada nos seus pólos mais opostos, num estilo de escrita que surpreende a cada capítulo, muito denso e difícil de ler no início, mas mais leve para o final do livro, e que passa por diversos tipo de narrativa, a narrativa como prosa quase poética, a narrativa simples, o monólogo, a leitura do diário de um dos personagens, etc, terminando com o capítulo que é o capítulo inicial e que é uma verdadeira alegoria da criação do mundo, num estilo totalmente oposto a todos os anteriores, todos eles magnificamente bem escritos mostrando toda a polivalência e excelência de Ruben A., consagrando-o como grande escritor.

Trata-se de um verdadeiro monumento à literatura, onde 120 páginas nos parecem 300 ou 400, pela constante obrigação sistemática de releitura das páginas, muitas destas escritas num estilo que nos obriga a pensar cada frase que lemos, porque escritas de uma forma poética e muitas vezes contrária ao nosso inconsciente sentido de interpretação das frases que muitas vezes faz com que a leitura de um livro seja uma operação de autómato. Ruben A. nunca deixa que isso aconteça, não nos deixando distrair sobre pena de não estarmos a perceber aquilo que estamos a ler, obrigando-nos a pensar até nas frases mais simples, que, se tivessem sido escritas de uma forma normal passariam despercebidas, mas ao estilo de Ruben A. fazem-nos descobrir os vícios de construção dos nossos pensamentos, vítimas da memória linguística que fomos inconscientemente criando e cimentando ao longo dos anos, despertando-nos quer da letargia de leitor-autómato, quer da letargia do significado de muitos dos nossos pensamentos pela denúncia das prisões da nossa memória linguística que muitas vezes vulgarizam e limitam a nossa visão da vida.

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