Opinião
Karim é um ex-revolucionário que sentiu o ridículo da sua acção ao conhecer Khaled Omar e Heikal, visionários na forma pragmática como se deve encarar a política e a sociedade nos dias de hoje. Khaled Omar foi preso por uma roubo menor, e na prisão aprendeu a fazer negócios, conhecimento que, após ter saído da prisão, o tornou num verdadeiro milionário. Entretanto, ao conhecer Karim, achou divertido e sem sentido que alguém se desse ao luxo de ir parar à prisão apenas por ideias. Heikal é um subversivo de todo o acto normal em termos sociais e políticos, actuando pelo escárnio e pondo a nu todo o ridículo da sociedade actual, sem necessidade de actuar contra esta, de uma forma extremamente inteligente e eficaz.
O governador é a figura central do escárnio, num plano engendrado por Heikal que conta ridicularizá-lo tanto, através da promoção da sua imagem em tons de grande político e herói, que vai fazer com que toda a população sinta o ridículo da sua política e se aperceba da sua verdadeira e profunda mediocridade e ostentação.
Apesar da genialidade do pensamento de Heikal, que torna ridículos os políticos no governo, tal não é de agrado dos revolucionários, que se sentem também ridicularizados pelas acções promovidas por Heikal, e que vão acabar por manchar a eficácia e resultado do seu plano, provando que o mal da sociedade não existe apenas nos que tomam o poder, mas que este é apenas uma imagem da população que representa.
Heikal é, contudo, um indivíduo aparentemente frio e cem por cento racional, vivendo apenas para o escárnio, violentando de certa forma todas as relações que tem com os mais chegados, tais como Soad, a sua namorada, e Urfi, o professor que redige os textos pedidos por Heikal, e que tem uma mãe louca que Heikal adora, por achar que está mais lúcida que a maioria das pessoas da população. Urfi desconfia do relacionamento de Heikal com a sua mãe, que julga artificial e insensível, mas descobrirá que, afinal, Heikal ainda é capaz de um sentimentalismo que o perturba e que o leva a reconhecer a artificialidade do seu escárnio.
A «Violência e o Escárnio» é uma história que surpreende a cada página, pela riqueza dos traços psicológicos e ideológicos dos seus personagens, pela descrição acutilante e mordaz da sociedade actual, e que, sem cair nos tradicionais chavões comuns de decadência da sociedade, consegue divertir e ao mesmo tempo criar um olhar original e mais desprendido de seriedade da realidade social em que vivemos, tirando-nos da modorra morna de formalidades de comportamentos e pensamentos sociais, permitindo alcançar uma visão de conjunto sobre a vida empacotando num minúsculo invólucro tudo aquilo que nos parece extremamente importante e que afinal de contas não o é, limpando e libertando a nossa mente para tudo o mais que a vida nos pode oferecer.
Um romance soberbo e deveras original, de leitura obrigatória por ser uma referência em termos de antítese a todas as abordagens literárias, formais e informais, de descrição mordaz e crítica a todas as formas de poder.