Opinião de Leitura
Nem só mas também Nem só mas também

Autor: Abelaira, Augusto

Leitor:

Opinião

Foi uma grata surpresa este livro de Augusto Abelaira. Do autor só tinha lido, e há muitos anos, “O único animal que”. Lembro-me muito pouco da obra, sei que gostei, mas não me lembro de muito mais. De Abelaira lembro mais nitidamente as crónicas no extinto “O Jornal”, ou antes, recordo o nome da coluna que assinava no dito semanário: “Escrever na Água”. Título que sempre achei poético, e apropriado a um espaço de jornal.

Volvidos estes anos todos, e por ocasião da sua morte eis que de novo ouço falar de Abelaira. “Nem só mas também”, romance de edição póstuma foi uma oportunidade de regressar ao autor.

Gostei bastante da escrita subtil e algo feminina de A. Abelaira. Feminina se calhar por falar tanto de mulheres, de as psicanalisar, ou pelo tipo de reflexões que faz. A forma de caderno de anotações em que a personagem principal vai relatando o que vê, o que sente, as conjecturas que faz sobre quem o rodeia, tudo isto a lembrar o contemporâneo formato bloguístico.

Neste romance acompanhamos as divagações de um homem, calculo que à volta de 60 anos, divorciado, que a partir das suas observações de um casal de enamorados (?) que está na mesma esplanada que ele, constrói todo um enredo de possíveis. O destino, as probabilidades, os encontros reais ou imaginários são alguns dos caminhos que o narrador explora. [i]Não só[/i] pleno de referências filosóficas, musicais (as Variações Goldberg podiam ser a música de fundo), [i]mas também[/i]com notas de viagem e reflexões sobre o amor e as suas inevitabilidades, este livro é sobretudo sobre o processo de escrita e sobre a imaginação.

Foi com prazer que percorri “Não só mas também” uma obra que termina como tinha de terminar “Ponto Final”.

Excerto

Compreender por que estou aqui e não ali significa que procuro conhecer as linhas com que me coso, procuro desinserir-me de uma ordem universal onde cada acontecimento possa explicar-se por outros anteriores, talvez posteriores, dum mundo sujeito a leis ignoradas, embora abrindo-se a mil possibilidades.
Insisto: toda a vida o meu propósito essencial tem sido afastar o acaso e a série causal da minha existência ou, pelo menos, o acaso ou a série causal que aparentemente me levaram a estar onde estive, a fazer o que faço

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