Opinião
Kerouac narra uma viagem, entre São Francisco e a costa, alimentada a álcool, drogas e divagações mais ou menos dispersas (por vezes lunáticas) sobre literatura, sobre a vida, sobre as vivências caóticas das personagens. Mas a escrita (tendo em conta o alcoolismo do escritor na época, e mesmo o seu desencanto com o movimento beat) é extremamente fluida, ágil, quer na descrição dos espaços percorridos, ou das personagens, quer na verbalização dos pensamentos do narrador e das suas alucinações ou prenúncios de loucura. Nesse sentido, a narrativa assume um carácter premonitório para o narrador, que não deixa de ir assinalando os vários momentos que interpreta como indícios da demência que acredita começar a germinar dentro de si.
Excerto
"O mundo é o que é e nada mais, é feito de mudança e coisas transitórias, visto numa perspectiva de longo prazo acaba por ser porreiro e não temos razões de queixa. (...) Todos concordamos que não conseguimos acompanhar esta pedalada, que estamos cercados pela vida, que nunca a compreenderemos, de maneira que optamos por concentrá-la nos nossos corpos bebendo goles de whisky pelo gargalo da garrafa e quando esta fica vazia eu saio a correr do carro e vou comprar outra, ponto parágrafo."