Opinião
As pessoas fazem-nos ver que somos mais um rato que vagueia neste mundo. Com perplexidade li Vasco Curado caracterizar-se no livro "O SENHOR AMBÍGUO", mas com a mesma hesitação descobri tratar-se afinal de uma imagem.
Vasco, no livro, universaliza as carapaças. Segundo o autor todos temos uma carapaça, no entanto, só no fim de várias etapas de vida letal, Vasco apercebe-se dessa universalização das carapaças. Vasco Curado tenta assim acabar com a ambiguidade que rege as pessoas. A carapaça, escreve ele, é algo que vai crescendo com o tempo, dominando o nosso Eu verdadeiro e essa carapaça é o que nos adapta à sociedade.
Numa pequena tentativa de assassínio da carapaça, Vasco tenta matar o seu corpo, aniquilar as relações sociais, por um final a tudo, mas apercebe-se que isso é, também, a sua morte.
O corpo está obsoleto para as novas percepções. Aquilo que "encarapaça-nos" é o corpo, que nos dá a identidade. Na nova percepção o Homem sente-se preso a uma carapaça. Vasco precisava de ser o único na multidão, mas no fim, desistiu. Tenta agora adaptar a carapaça ao mundo pois destruir o corpo provocaria a sua morte e falharia nos seus objectivos.
A tarefa de adaptar a carapaça aos seus objectivos é árdua. Penso que não conseguiria se o romance continuasse. Assim como a sua carapaça o seu eu interior revela-se bastante forte, porém, demasiado asfixiado. Como diz no fim - "Agora o suicídio aparece como uma possibilidade."
A eterna luta entre o eu e a carapaça abordada no romance "O SENHOR AMBÍGUO" de Vasco Curado.