Cesário Verde

Portugal
25 Fev 1855 // 19 Jul 1886
Poeta

26 Poemas

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Eu e Ela (1)

Cobertos de folhagem, na verdura,/ O teu braço ao redor do meu pescoço,/ O teu fato sem ter um só destroço,/ O meu braço apertando-te a cintura;/ / Num mimoso jardim, ó pomba mansa,/ Sobre um banco d...

Contrariedades (2)

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;/ Nem posso tolerar os livros mais bizarros./ Incrível! Já fumei três maços de cigarros/ Consecutivamente./ / Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:/ Ta...

Vaidosa (3)

Dizem que tu és pura como um lírio/ E mais fria e insensível que o granito,/ E que eu que passo aí por favorito/ Vivo louco de dor e de martírio./ / Contam que tens um modo altivo e sério,/ Que és mu...

Impossível (4)

Nós podemos viver alegremente,/ Sem que venham com fórmulas legais,/ Unir as nossas mãos, eternamente,/ As mãos sacerdotais./ / Eu posso ver os ombros teus desnudos,/ Palpá-los, contemplar-lhes a bra...

Num Bairro Moderno (5)

Dez horas da manhã; os transparentes/ Matizam uma casa apalaçada;/ Pelos jardins estancam-se as nascentes,/ E fere a vista, com brancuras quentes,/ A larga rua macadamizada./ / Rez-de-chaussée repous...

Cinismos (6)

Eu hei de lhe falar lugubremente/ Do meu amor enorme e massacrado,/ Falar-lhe com a luz e a fé dum crente./ / Hei de expor-lhe o meu peito descarnado,/ Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário,/ E ser me...

Deslumbramentos (7)

Milady, é perigoso contemplá-la,/ Quando passa aromática e normal,/ Com seu tipo tão nobre e tão de sala,/ Com seus gestos de neve e de metal./ / Sem que nisso a desgoste ou desenfade,/ Quanta...

Loira (8)

Eu descia o Chiado lentamente/ Parando junto às montras dos livreiros/ Quando passaste irônica e insolente,/ Mal pousando no chão os pés ligeiros./ / O céu nublado ameaçava chuva,/ Saía gente fina de...

Manias (9)

O mundo é velha cena ensanguentada./ Coberta de remendos, picaresca;/ A vida é chula farsa assobiada,/ Ou selvagem tragédia romanesca./ / Eu sei um bom rapaz, - hoje uma ossada -,/ Que amava certa da...

Flores Velhas (10)

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,/ Aonde tanta vez a lua nos beijou,/ E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,/ Soberba como um sol, serena como um vôo./ / Em tudo cintilava o límpido poema...

Heroísmos (11)

Eu temo muito o mar, o mar enorme,/ Solene, enraivecido, turbulento,/ Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;/ O mar sublime, o mar que nunca dorme./ / Eu temo o largo mar, rebelde, informe,/ De víti...

Arrojos (12)

Se a minha amada um longo olhar me desse/ Dos seus olhos que ferem como espadas,/ Eu domaria o mar que se enfurece/ E escalaria as nuvens rendilhadas./ / Se ela deixasse, extático e suspenso/ Tomar-l...

Lágrimas (13)

Ela chorava muito e muito, aos cantos,/ Frenética, com gestos desabridos;/ Nos cabelos, em ânsias desprendidos/ Brilhavam como pérolas os prantos./ / Ele, o amante, sereno como os santos,/ Deitado no...

A Débil (14)

Eu, que sou feio, sólido, leal,/ A ti, que és bela, frágil, assustada,/ Quero estimar-te sempre, recatada/ Numa existência honesta, de cristal./ / Sentado à mesa dum café devasso,/ Ao avistar-te, há ...

Lúbrica (15)

Mandaste-me dizer,/ No teu bilhete ardente,/ Que hás de por mim morrer,/ Morrer muito contente./ / Lançastes, no papel/ As mais lascivas frases;/ A carta era um painel/ De cenas de rapazes!/ / Ó cáli...

Esplêndida (16)

Ei-la! Como vai bela! Os esplendores/ Do lúbrico Versailles do Rei-Sol!/ Aumenta-os com retoques sedutores./ É como o refulgir dum arrebol/ Em sedas multicores./ / Deita-se com langor no azul celeste...

Ironias do Desgosto (17)

Onde é que te nasceu - dizia-me ela às vezes -/ O horror calado e triste às coisas sepulcrais?/ Por que é que não possuis a verve dos franceses/ E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais?...

Pró Pudor (18)

Todas as noites ela me cingia/ Nos braços, com brandura gasalhosa;/ Todas as noites eu adormecia,/ Sentindo-a desleixada a langorosa./ / Todas as noites uma fantasia/ Lhe emanava da fronte imaginosa;...

Noite Fechada (19)

L./ / Lembras-te tu do sábado passado,/ Do passeio que demos, devagar,/ Entre um saudoso gás amarelado/ E as carícias leitosas do luar?/ / Bem me lembro das altas ruazinhas,/ Que ambos nós percorremo...

Desastre (20)

Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,/ Soltando fundos ais e trêmulos queixumes;/ Caíra dum andaime e dera com o peito,/ Pesada e secamente, em cima duns tapumes./ / A brisa que balouça as árvore...
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