José Carlos Ary dos Santos

Portugal
1937 // 1984
Poeta

15 Poemas



Desespero (1)

Não eram meus os olhos que te olharam/ Nem este corpo exausto que despi/ Nem os lábios sedentos que poisaram/ No mais secreto do que existe em ti./ / Não eram meus os dedos que tocaram/ Tua falsa bel...

Retrato de Amigo (2)

Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo/ meu irmão minha amêndoa meu amigo/ meu tropel de ternura minha casa/ meu jardim de carência minha asa./ / Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu si...

Estrela da Tarde (3)

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia/ Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia/ Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria./ Quando à boca d...

Soneto de Mal Amar (4)

Invento-te recordo-te distorço/ a tua imagem mal e bem amada/ sou apenas a forja em que me forço/ a fazer das palavras tudo ou nada./ / A palavra desejo incendiada/ lambendo a trave mestra do te...

Minha Mãe que não Tenho (5)

Minha mãe que não tenho meu lençol/ de linho de carinho de distância/ água memória viva do retrato/ que às vezes mata a sede da infância./ / Ai água que não bebo em vez do fel/ que a pouc...

Caminharemos de Olhos Deslumbrados (6)

Caminharemos de olhos deslumbrados/ E braços estendidos/ E nos lábios incertos levaremos/ O gosto a sol e a sangue dos sentidos./ / Onde estivermos, há-de estar o vento/ Cortado de perfumes e gemidos...

Meu Camarada e Amigo (7)

Revejo tudo e redigo/ meu camarada e amigo./ Meu irmão suando pão/ sem casa mas com razão./ Revejo e redigo/ meu camarada e amigo/ / As canções que trago prenhas/ de ternura pelos outros/ saem das mi...

Nona Sinfonia (8)

É por dentro de um homem que se ouve/ o tom mais alto que tiver a vida/ a glória de cantar que tudo move/ a força de viver enraivecida./ / Num palácio de sons erguem-se as traves/ que seguram o tecto...

Da Condição Humana (9)

Todos sofremos./ O mesmo ferro oculto/ Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta/ O mesmo sal nos queima os olhos vivos./ Em todos dorme/ A humanidade que nos foi imposta./ Onde nos encontramos, dive...

O Poema Original (10)

Original é o poeta/ que se origina a si mesmo/ que numa sílaba é seta/ noutra pasmo ou cataclismo/ o que se atira ao poema/ como se fosse ao abismo/ e faz um filho às palavras/ na cama do romantismo....

Retrato do Povo de Lisboa (11)

É da torre mais alta do meu pranto/ que eu canto este meu sangue este meu povo./ Dessa torre maior em que apenas sou grande/ por me cantar de novo./ / Cantar como quem despe a ganga da tristeza/ e põ...

Retrato do Herói (12)

Herói é quem num muro branco inscreve/ O fogo da palavra que o liberta:/ Sangue do homem novo que diz povo/ e morre devagar de morte certa./ / Homem é quem anónimo por leve/ lhe ser o nome próprio...

Ecce Homo (13)

Desbaratamos deuses, procurando/ Um que nos satisfaça ou justifique./ Desbaratamos esperança, imaginando/ Uma causa maior que nos explique./ / Pensando nos secamos e perdemos/ Esta força selvagem e s...

Auto-retrato (14)

Poeta é certo mas de cetineta/ fulgurante de mais para alguns olhos/ bom artesão na arte da proveta/ marciso de lombardas e repolhos./ / Cozido à portuguesa mais as carnes/ suculentas da auto-importâ...

Namorados da Cidade (15)

Namorados de Lisboa/ à beira-Tejo assentados/ a dormir na Madragoa./ Namorados de Lisboa/ num mirante deslumbrados/ à beira-verde acordados/ namorados de Lisboa!/ / Ao domingo uma cerveja/ uma pevide...


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