Às vezes ocorria-lhe aquele poema de Pessoa em que um homem se punha à janela da sua meninice apenas para descobrir que nem ele era já o mesmo homem, nem a janela a mesma janela. A infância, dizia a si próprio, havia-se tornado um bem de demasiado valor. Não podia dar-se ao luxo de concluir que também ela era mentira.
A condescendência, com o que tinha de indiferença e de mentira, era a grande inimiga da intimidade. A verdade podia fazer muita mossa. Estava longe de ser um valor absoluto. Mas, se ruía a intimidade, restava o quê? Sustinha-se de pé o quê? Sustinha-nos de pé o quê?
Era um homem com um problema momentâneo de auto-estima e que tinha um cão que tratava como a uma pessoa. O mundo estava cheio de homens assim, pelo que não seria mais um a perturbar o equilíbrio cósmico.
Era uma criatura simpática e terna – o tipo de pessoa a quem o tímido se dirige, em busca de protecção, ao entrar numa sala que lhe parece hostil. Não haveria muitas qualidades francamente superiores a essa.
Talvez deva ter presente que um homem não pode mudar de geografia para fugir às pessoas. Aqui também há pessoas. De resto, para onde quer que esse homem fuja, haverá sempre ele próprio.
Mantenha-se longe da política e tão longe dos políticos quanto conseguir. E, sempre que der por si de candeias às avessas com as pessoas, refugie-se na paisagem.
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