É exactamente isso, a fluência: parecer que um discurso, quando se produz com alguma rapidez, prova alguma coisa. E é exactamente isso o que sempre me perturbou. Porque as palavras têm uma carga de malignidade tão grande que quando se procuram fazem-no para deter poder. E ultrapassam aquilo que nós pretendemos dizer. Daí uma espécie de vigilância ou de suspeita em relação à palavra e em relação ao discurso.
Eu acho que nenhuma palavra diz uma pessoa. E esse é o único plano da transcendência — aqui literalmente — que me fascina. É que uma pessoa está totalmente para lá de tudo o que se pode dizer. Há um lado irredutível em cada pessoa. Irredutível a qualquer palavra. E é isso que o escritor deve explorar, sabendo que não chega lá. Aliás, há um lado irredutível na própria realidade. E é essa irredutibilidade que leva a que se escreva continuamente.
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