As pessoas querem um passatempo. Esse tipo de passatempo a minha escrita não fornece. Qualquer escrita que resista a essa apropriação imediata está condenada a viver à margem.
Para ler um livro, não uma coisa qualquer, é preciso tempo, e dá trabalho. O leitor tem de entrar num mundo que não conhece. O que acontece é que muitos dos críticos impõem àquilo que lêem um esquema prévio e não buscam o que há ali de novo. Aquilo que não está de acordo com o esquema que já trazem não serve. Não têm a inocência da abordagem, e é preciso essa inocência. Nós vivemos confrontados com uma linguagem que esqueceu uma quantidade enorme de nomes.
A verdadeira escrita começa sempre por algo de esplendoroso. A verdade começa sempre por algo de muito pessoal, e a verdadeira escrita conta aquilo que sabe, que viu e viveu. Esse é o princípio.
É exactamente isso, a fluência: parecer que um discurso, quando se produz com alguma rapidez, prova alguma coisa. E é exactamente isso o que sempre me perturbou. Porque as palavras têm uma carga de malignidade tão grande que quando se procuram fazem-no para deter poder. E ultrapassam aquilo que nós pretendemos dizer. Daí uma espécie de vigilância ou de suspeita em relação à palavra e em relação ao discurso.
(A literatura) Acho que pode muito pouco, e não é um problema, isso. A literatura pode fazer algumas coisas. O que pode fazer é obrigar-me a entrar na minha própria intimidade. Um livro é actual quando eu entro na minha intimidade. É isso que a literatura pode, e muito pouco mais pode.
Eu acho que nenhuma palavra diz uma pessoa. E esse é o único plano da transcendência — aqui literalmente — que me fascina. É que uma pessoa está totalmente para lá de tudo o que se pode dizer. Há um lado irredutível em cada pessoa. Irredutível a qualquer palavra. E é isso que o escritor deve explorar, sabendo que não chega lá. Aliás, há um lado irredutível na própria realidade. E é essa irredutibilidade que leva a que se escreva continuamente.
Uma coisa pode ter muita importância e não ser sagrada. O sagrado estabelece qualquer coisa como intocável. Como transcendente. Uma coisa em relação à qual eu tenho de ter respeito. E eu não tenho. Realmente, não tenho. Qualquer homem é igual a qualquer homem. As ideias valem o que valem os homens. Não há ideias sagradas. Uma língua não é sagrada, um hino muito menos. Nada é sagrado, e é precisamente por nada ser sagrado que eu sou um homem, plenamente. Senão, sou um títere. E isso eu rejeito.
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