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Michel Eyquem de Montaigne

França
28 Fev 1533 // 13 Set 1592
Ensaísta/Escritor

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A Incomodidade da Grandeza

Já que não a podemos alcançar, vinguemo-nos falando mal dela. No entanto, não é inteiramente falar mal de alguma coisa encontrar-lhe defeitos; estes encontram-se em todas as coisas, por belas e desejáveis que sejam. Em geral, ela possui esta vantagem evidente de se rebaixar quando lhe apraz, e de mais ou menos ter a opção entre uma situação e a outra; pois não se cai de todas as alturas; são mais numerosas aquelas das quais se pode descer sem cair. Bem me parece que a valorizamos demais, e valorizamos demais também a decisão dos que vimos ou ouvimos dizer que a menosprezaram ou que renunciaram a ela por sua própria intenção. A sua essência não é tão evidentemente cómoda que não a possamos rejeitar sem milagre. Acho muito difícil o esforço de suportar os males; mas em contentar-se com uma medida mediana de fortuna e em fugir da grandeza acho pouca dificuldade. É uma virtude, parece-me, a que eu, que não passo de um patinho, chegaria sem muito esforço. Que devem fazer aqueles que ainda levassem em consideração a glória que acompanha tal rejeição, na qual pode caber mais ambição do que no próprio desejo e gozo da grandeza, porquanto a ambição nunca se conduz mais à vontade do que por um caminho desgarrado e inusitado?
Aguço o meu ânimo para a resistência, enfraqueço-o para o desejo. Tenho tanto a desejar quanto qualquer outro e deixo aos meus desejos a mesma liberdade e falta de discernimento; mas apesar disso nunca me adveio desejar nem império nem realeza, nem a eminência dessas fortunas elevadas e de comando. Não viso desse lado; amo-me demais a mim mesmo. Quando penso em crescer, é rasteiramente, com um crescimento restrito e timorato, para mim pessoalmente, em firmeza, em sensatez, em saúde, em beleza e ainda em riqueza. Mas essa responsabilidade, essa autoridade tão poderosa oprimem a minha imaginação. E, muito ao contrário do outro (César), talvez preferisse ser segundo ou terceiro em Périgueux a ser o primeiro em Paris; pelo menos, sem mentir, ser o terceiro em Paris a ter o primeiro posto. Não quero nem discutir com um porteiro, mísero desconhecido, nem fazer abrir alas em adoração às multidões pelas quais eu passar. Estou habituado a um patamar mediano, tanto devido à minha sorte como devido ao meu gosto. E tenho demonstrado, na condução da minha vida e dos meus empreendimentos, que antes evitei do que procurei pular para cim do degrau da fortuna no qual Deus colocou o meu nascimento. Todo o estatuto natural é ao mesmo tempo legítimo e fácil.

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'




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