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Fernando Pessoa

Portugal
13 Jun 1888 // 30 Nov 1935
Poeta

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A Religião e o Jornalismo São as Únicas Forças Verdadeiras

Todas as artes são uma futilidade perante a literatura. As artes que se dirigem à visualidade, além de serem únicos os seus produtos, e perecíveis, podendo portanto, de um momento para o outro, deixar de existir, não existem senão para criar ambiente agradável, para distrair ou entreter — exactamente como as artes de representar, de cantar, de dançar, que todos reconhecem como sendo inferiores em relação às outras. A própria música não existe senão enquanto executada, participando portanto da futilidade das artes de representação. Tem a vantagem de durar, em partituras; mas essa não é como a dos livros, ou coisas escritas, cuja valia está em que são partituras acessíveis a todos os que sabem ler, existindo ali para a interpretação imediata de quem lê, e não para a interpretação do executante, transmitida depois ao ouvinte.
As literaturas, porém, são escritas em línguas diferentes, e, como não há possibilidades de haver uma língua universal, nem, se vier a havê-la, será o grego antigo, onde tantas obras de arte se escreveram, ou o latim, ou o inglês ou outra qualquer, e se for uma delas não será as outras, segue que a literatura, sendo escrita para a posteridade, não a atinge senão, na maioria dos casos, em referências indirectas, nomes sem sentido, numa vida de citação traduzida e dicionário.
O jornalismo, sendo literatura, dirige-se todavia ao homem imediato e ao dia que passa. Tem a força directa das artes inferiores mas humanas, como o canto e a dança; tem a força de ambiente das artes visuais; tem a força mental da literatura, por de facto ser literatura. Como, porém, o seu fim não é senão ser literatura naquele dia, ou em poucos dias, ou, quando muito, numa breve época ou curta geração, vive perfeitamente conforme com os seus fins.
Concedo, disse, que Ésquilo seja hoje, ainda que translatamente, uma influência. Nego que uma influência translata possa ser uma influência literária. É para nós como um homem agradável que nos fala uma língua estranha. Como é agradável, admitimos que nos esteja a dizer coisas simpáticas. Como, porém, o fim de dizer é ser entendido, e o não entendemos, há erro em tudo o que está nisto.
A religião e o jornalismo são as únicas forças verdadeiras. Quando se diz que o jornalismo é um sacerdócio, diz-se bem, mas o sentido não é o que se atribui à frase. O jornalismo é um sacerdócio porque tem a influência religiosa dum sacerdote; não é um sacerdócio no sentido moral, pois não há, nem pode haver moral no jornalismo, que serve o momento que passa, em o qual não cabe, nem pode caber, moralidade.
Quando digo que escreve futilmente o que escreve para a imortalidade, ou para as épocas futuras, deve entender-se que não pretendo com isso negar a sobrevivência da alma, ou até a sua imortalidade. Não nego nem afirmo; concedo. Mas nada disso pesa no meu argumento. A acção da literatura é sobre quem fica neste mundo — (e o astral do poema, ou da narrativa?...).
— Engana-se, meu amigo, disse eu. Cada coisa neste mundo não é porventura senão a sombra e o símbolo de uma coisa (essa a verdadeira) em outro mundo antetípico ou espiritual. Não é pois a língua em que está escrito um poema que pesa no caso. É o poema que foi escrito nessa língua. E esse é uma entidade abstracta e real, agente sem corpo verbal.
— Seja, respondeu o jornalista. Concedo sem admitir.

Fernando Pessoa, in 'Ideias Estéticas - Da Literatura'




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