Nicolau Tolentino

Portugal
10 Set 1740 // 23 Jun 1811
Poeta

A Guerra

Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Horácio e de Juvenal,

Agora os verás queimar,
já que em vão os fecho e os sumo;
e leve o volúvel ar,
de envolta como turvo fumo,
o teu furor de rimar.

Se tu de ferir não cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa dá-las ao vento,
se podem achar cabeças?

Tendo as sátiras por boas,
do Parnaso nos dois cumes
em hora negra revoas;
tu dás golpes nos costumes,
e cuidam que é nas pessoas.

Deixa esquipar Inglaterra
cem naus de alterosa popa,
deixa regar sangue a terra.
Que te importa que na Europa
haja paz ou haja guerra?

Deixa que os bons e a gentalha
brigar ao Casaca vão,
e que, enquanto a turba ralha,
vá recebendo o balcão
os despojos da batalha.

Que tens tu que ornada história
diga que peitos ferinos,
em sanguinosa vitória,
inumanos, assassinos,
são do mundo a honra e a glória?

As guerras precisas são,
nelas a paz se assegura:
não metas em tudo a mão,
musa louca; por ventura
encomendam-te o sermão?

Deixa que o roto taful,
a quem na pátria foi mal,
vá cruzar de norte a sul;
cubram-lhe o corpo venal
três palmos de pano azul.

Deixa que em tarimba estreita
o desperte a aurora ingrata;
que o duro cabo, que o espreita,
o faça, ao som da chibata,
virar à esquerda e à direita.

Deixa-lhe em sangue envolver
duro pão, que lhe dá Marte;
e, para poder viver,
deixa-lhe aprender esta arte
de matar e de morrer.

Vá junto à queimada zona
arvorar em rotos muros
o estandarte de Belona;
calejem-se os ombros duros
as correias da patrona.

Voe-lhe aos ares um pé;
sobre o outro, com valor,
a Plutão cem mortos dê;
arda de raiva e furor
sem nunca saber porquê.

Sem causa, entre dentes trazes
a grande arte das batalhas;
murmuras de seus sequazes;
e, quando da guerra ralhas,
outra com a língua fazes.

Dizes que uma guerra acesa
é teatro de impiedade;
chamas-lhe crua fereza,
flagelo da Humanidade,
triste horror da natureza.

Pintas um bravo guerreiro,
e a meus olhos vens mostrá-lo,
para ferir mais ligeiro,
metendo o ardente cavalo
sobre o exangue companheiro.

A um lado e a outro lado
a morte mandando vai
co sanguinoso traçado,
até que ele mesmo cai
de um pelouro atravessado.

Co'as cabeças abatidas,
vão de ferro vil marcados,
maldizendo as tristes vidas,
mil cativos manietados,
vertendo sangue as feridas.

Entre horrorosos troféus,
o general desumano
manda falso incenso aos céus,
e de espalhar sangue humano
vai dando louvor a Deus.

Dizes que se compra quina,
porque altas febres desterra;
e que em colégios se ensina,
em uma aula, a arfe da guerra,
em outra, a da Medicina.

Que no frio, vasto norte,
cem Boerhaves eloquentes
enchem de oiro o cofre forte,
porque perdidos doentes
arrancam das mãos da morte.

Que ali mesmo grosso fruto
colhe Saxe entre os soldados,
porque em minado reduto
tez voar, despedaçados,
dez mil homens num minuto.

Tirando então consequências,
zombar dos homens procuras
e das suas vãs ciências:
sempre cheios de loucuras
e cheios de incoerências.

Se a paz, em dias felizes,
à cara pátria os conduz,
dizes que estes infelizes
mostram, rindo, os peitos nus,
cortados de cicatrizes;

Que este reconta aos parentes
como em perigoso passo,
zunindo balas ardentes,
uma lhe quebrou um braço;
outra lhe levou os dentes;

Que outro, da perna cortada
abençoa a horrível chaga,
porque ao peito, pendurada,
trará algum dia, em paga,
inútil fita encarnada.

Dizes que entre os animais
proíbe guerras o instinto;
e que, surdo a tristes ais,
vês com horror o homem tinto
no sangue dos seus iguais.

Musa, não discorres bem:
pois se uns com os outros cabem,
e juntos a um pasto vêm,
é só porque ainda não sabem
a virtude que o ouro tem.

Por preciosos metais
não põem peitos a bravos mares;
traze exemplos mais iguais:
sábios homens não compares
com os brutos animais.

Trazem focinho no chão,
e nós sempre ao alto olhamos;
temos em dote a razão
e por isso levantamos
uns contra os outros a mão.

Se os homens se não matassem
e impunemente crescessem,
pode ser que não achassem
nem fontes de que bebessem
nem campos que semeassem.

Em vão febres inimigas
os mirrados corpos gastam:
tornam as forças antigas,
e está visto que não bastam
nem malignas nem bexigas.

Travem-se cruas batalhas,
arrasem batidos muros
os soldados de quem ralhas;
adornem-lhes os membros duros
grossas, tresdobradas malhas.

Sabe que mil males faz
a mole tranquilidade
e que em seu seio nos traz
brando luxo e ociosidade,
danosos filhos da paz,

Que nos causa ocultos danos,
fingindo rosto inocente;
que a guerra de largos anos
conservou antigamente
a inocência dos Romanos;

Que, enquanto ao duro exercício
eram seus corpos afeitos,
e da paz não houve indício,
não lavrava nos seus peitos
mortal peçonha do vício;

Não havia mãos profanas,
eram suas almas sãs;
e nas símplices cabanas
fiavam grosseiras lãs
as castas moças romanas.

Fez jano os povos amigos,
inerte ócio os peitos toma;
cos combates, cos perigos
foram-se, ó austera Roma,
os teus costumes antigos.

Entre as nações sossegadas
sabe que o ócio arraigado
e as paixões em paz criadas
fazem mais sangue no Estado
que os gumes das espadas.

Deixa pois haver queixumes:
metam-se armadas no fundo,
acenda a guerra os seus lumes,
que assim tornará ao mundo
a inocência dos costumes.

A intacta fé, a verdade
venham com as baterias;
desça do céu a amizade;
e torne a doirar os dias
de Saturno a antiga idade.

Musa vã, que em ti não cabes,
os guerreiros arraiais
nem vituperes, nem gabes;
e não te metas jamais
a falar no que não sabes.

Haja bloqueio, haja assédio;
o sangue humano espalhado
nem sempre te cause tédio;
que em boa dose tomado,
té o veneno é remédio.

Deixa ir o mundo seu passo,
e contra si mesmo armado
corte c'um braço o outro braço.
Põe na boca um cadeado,
faze o que eu mil vezes faço.

Emprega melhor teu canto;
e, pois queres que te louvem,
mão das sátiras levanto;
poesias que os homens ouvem
um com riso e cem com pranto.

De bons anos na função
leva a Fílis fria glosa;
beija-lhe a nevada mão;
chama-lhe Vénus formosa,
inda que seja um dragão.

Églogas também dão fama;
fala em surrão e em curral;
e do vulgo os olhos chama
nas paredes do Arsenal,
cheia de aplauso e de lama.

De galegos rodeada,
aos Aristarcos escapa;
té que das tendas chamada,
sejas protectora capa
de manteiga e marmelada.

Nicoulau Tolentino, in 'Antologia Poética'




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