António Ramos Rosa

Portugal
1924 // 2013
Poeta/Ensaísta

21 Poemas

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Não Posso Adiar o Amor (1)

Não posso adiar o amor para outro século/ não posso/ ainda que o grito sufoque na garganta/ ainda que o ódio estale e crepite e arda/ sob montanhas cinzentas/ e montanhas cinzentas/ / Não posso adiar...

É por Ti que Vivo (2)

Amo o teu túmido candor de astro/ a tua pura integridade delicada/ a tua permanente adolescência de segredo/ a tua fragilidade acesa sempre altiva/ / Por ti eu sou a leve segurança/ de um peito que p...

Para um Amigo Tenho Sempre (3)

Para um amigo tenho sempre um relógio/ esquecido em qualquer fundo de algibeira./ Mas esse relógio não marca o tempo inútil./ São restos de tabaco e de ternura rápida./ É um arco-íris de sombra, quen...

A Mulher (4)

Se é clara a luz desta vermelha margem/ é porque dela se ergue uma figura nua/ e o silêncio é recente e todavia antigo/ enquanto se penteia na sombra da folhagem./ Que longe é ver tão perto o centro ...

Mãe (5)

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade./ Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital./ Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta/ Estou contigo na tua simplicid...

É por Ti que Escrevo (6)

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa/ mas a mulher do meu horizonte/ na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia/ Por ti desejo o sossego oval/ em que possas identificar-te na limpidez ...

Vive-se Quando se Vive a Substância Intacta (7)

Vive-se quando se vive a substância intacta/ em estar a ser sua ardente harmonia/ que se expande em clara atmosfera/ leve e sem delírio ou talvez delirando/ no vértice da frescura onde a imagem tre...

Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo (8)

Por vezes cada objecto se ilumina/ do que no passar é pausa íntima/ entre sons minuciosos que inclinam/ a atenção para uma cavidade mínima/ E estar assim tão breve e tão profundo/ como no silênci...

A Festa do Silêncio (9)

Escuto na palavra a festa do silêncio./ Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se./ As coisas vacilam tão próximas de si mesmas./ Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas./ É o vazio ou...

Vertentes (10)

As palavras esperam o sono/ e a música do sangue sobre as pedras corre/ a primeira treva surge/ o primeiro não a primeira quebra/ / A terra em teus braços é grande/ o teu centro desenvolve-se como um...

A Verdade (11)

A verdade é semelhante a uma adolescente/ vibrante, flexível, em radiosa sombra./ Quando fala é a noite translúcida no mar/ e a esfera germinal e os anéis da água./ Um apelo suave obstinado se adivin...

Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma (12)

Um ofício que fosse de intensidade e calma/ e de um fulgor feliz E que durasse/ com a densidade ardente e contemporâneo/ de quem está no elemento aceso e é a estatura/ da água num corpo de alegria E ...

A Partir da Ausência (13)

Imaginar a forma / doutro ser Na língua,/ proferir o seu desejo/ O toque inteiro/ / Não existir/ / Se o digo acendo os filamentos/ desta nocturna lâmpada/ A pedra toco do silêncio densa/ Os veios de ...

O Jardim (14)

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,/ calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes./ Sequências de convergências e divergências,/ ordem e dispersões, transparência de estruturas,/ p...

A Palavra (15)

Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina/ e a alegria aviva-se em redonda ressonância./ O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível/ que reconhece e inventa a pluralidade delicada./ Ao lo...

A Leitora (16)

A leitora abre o espaço num sopro subtil./ Lê na violência e no espanto da brancura./ Principia apaixonada, de surpresa em surpresa./ Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco./ Ela fala com as pe...

A Leitora (17)

A leitora abre o espaço num sopro subtil./ Lê na violência e no espanto da brancura./ Principia apaixonada, de surpresa em surpresa./ Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco./ Ela fala com as pe...

Poema dum Funcionário Cansado (18)

A noite trocou-me os sonhos e as mãos/ dispersou-me os amigos/ tenho o coração confundido e a rua é estreita/ / estreita em cada passo/ as casas engolem-nos/ sumimo-nos,/ estou num quarto só num quar...

Mediadora do Vento (19)

Ligeira sobre o dia/ ao som dos jogos,/ desliza com o vento/ num encantado gozo./ / Pelas praias do ar/ difunde-se em prodígios./ Tudo é acaso leve,/ tudo é prodígio simples./ / Pequena e magnífica/ ...

Não Choro pela Pátria (20)

Não choro pela pátria Ninguém chora pela pátria/ Retém-se o grito que lavra pelo corpo/ sulcos sangrentos e o faz sentir em si a pele/ que se separa e se encolhe ante a violência/ da dispersão comum ...
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