José Jorge Letria

Portugal
n. 8 Jun 1951
Jornalista/Político/Poeta/Escritor

16 Poemas



Quando Eu For Pequeno (1)

Quando eu for pequeno, mãe,/ quero ouvir de novo a tua voz/ na campânula de som dos meus dias/ inquietos, apressados, fustigados pelo medo./ Subirás comigo as ruas íngremes/ com a certeza dócil de qu...

Um Pouco Mais de Nós (2)

Podes dar uma centelha de lua,/ um colar de pétalas breves/ ou um farrapo de nuvem;/ podes dar mais uma asa/ a quem tem sede de voar/ ou apenas o tesouro sem preço/ do teu tempo em qualquer lugar;/ p...

A Sofreguidão de um Instante (3)

Tudo renegarei menos o afecto,/ e trago um ceptro e uma coroa,/ o primeiro de ferro, a segunda de urze,/ para ser o rei efémero/ desse amor único e breve/ que se dilui em partidas/ e se fragmenta em ...

Ode ao Gato (4)

Tu e eu temos de permeio/ a rebeldia que desassossega,/ a matéria compulsiva dos sentidos./ Que ninguém nos dome,/ que ninguém tente/ reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,/ pois nós temos fôlegos ...

Ode aos Natais Esquecidos (5)

Eu vinha, pé ante pé, em busca da pequena porta / que dava acesso aos mistérios da noite, / daquela noite em particular, por ser a mais terna / de todas as noites que a minha memória / era capaz de g...

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado (6)

A minha saudade tem o mar aprisionado/ na sua teia de datas e lugares./ É uma matéria vibrátil e nostálgica/ que não consigo tocar sem receio,/ porque queima os dedos,/ porque fere os lábios,/ porque...

Não Precisas de me Procurar (7)

Aqui não precisas de me procurar/ para me encontrares, que eu estou,/ omnipresente, em todo o chão que pisas,/ duplicando a tua sombra,/ deixando um rasto de brisa,/ um aroma de urze na marca dos teu...

Hei-de Trazer-te Aqui (8)

Hei-de trazer-te aqui para te mostrar/ os pequenos barcos brancos/ que levam o Verão desenhado nas velas/ e trazem no bojo a alegria dos arquipélagos/ onde se ama sem azedume nem pressa./ Aqui, temos...

Que não Arrefeça em Nós (9)

Que não arrefeça em nós/ nem a luz nem o fogo/ e que a fome entardecida/ pela penumbra da fadiga dos olhos/ nunca renuncie ao sabor dos frutos/ ou à febre da sede dos lábios./ Assim se faça tudo, amo...

Meditação Sobre os Poderes (10)

Rubricavam os decretos, as folhas tristes/ sobre a mesa dos seus poderes efémeros./ Queriam ser reis, czares, tantas coisas,/ e rodeavam-se de pequenos corvos,/ palradores e reverentes, dos que repet...

Mãe, Eu Estou tão Cansado (11)

Mãe, eu estou tão cansado e sinto nos ossos/ o chamamento da água, o chamamento sibilino/ que se confunde com o ranger das portas das casas/ onde jamais voltarei: venha veloz o sono capaz/ de me resg...

Os Filhos São Figuras Estremecidas (12)

Os filhos são figuras estremecidas/ e, quando dormem, a felicidade/ cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes/ os lábios, ama-os sobre as camas./ É por mim que chamam quando temem/ o eclipse e o temporal. T...

O Amor Tudo Mata quando Morre (13)

Eu morro dia a dia, sabendo-o, sentindo-o,/ com a morte do amor em mim./ Esvaiu-se, ensandeceu, partiu,/ espécie de sol sepultado por mãos ímpias,/ numa cratera de lua, algures,/ ou na tristeza de um...

O Cerimonial das Mãos (14)

Mãe, onde foi que deixaste a outra metade,/ a que anunciava o sol na turvação das noites,/ a que iluminava a sombra no cerimonial das mãos?/ Em que côncavo de rochas buscava abrigo/ essa outra metade...

A Árvore, a Estrela e a Pequena Mão (15)

A pequena mão desenha a árvore/ onde uma estrela se aninha para dormir. / Que dia será o de amanhã/ no meio dos escombros onde o eco da súplica/ enlouquece os cães famintos? / Quadro trágico para uma...

Com uma Estrela na Voz (16)

Que voz é esta? De onde vem? / Que fantasmas antigos desperta / quando tudo o mais parece / ferido pela imobilidade de um sono de pedra?/ / Corres agora atrás das vozes/ acantonadas nas arcas de Deze...


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