Vitorino Nemésio

Portugal
1901 // 1978
Poeta/Escritor

14 Poemas



Arrependo-me de a Meter num Romance (1)

O poema tem mais pressa que o romance,/ Asa de fogo para te levar:/ Assim, pois, se houver lama que te lance/ Ao corpo quente algum, hei-de chorar./ / Deus fez o poeta por que não descanse/ No golfo ...

Teu Só Sossego aqui Contigo Ausente (2)

Teu só sossego aqui contigo ausente/ Na casa que te veste à justa de paredes,/ Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente/ Dos cuidados que deixas ao partir,/ A doce estância toda povoada/ Dos míni...

Tenho uma Saudade tão Braba (3)

Tenho uma saudade tão braba/ Da ilha onde já não moro,/ Que em velho só bebo a baba/ Do pouco pranto que choro./ / Os meus parentes, com dó,/ Bem que me querem levar,/ Mas talvez que nem meu pó/ Mere...

Já não Escreverei Romances (4)

Já não escreverei romances/ Nem contos da fada e o rei./ Vão-se-me todas as chances/ De grande escritor. Parei./ Mas na chispa do verso,/ Com Marga a aquecer-me,/ Já não serei disperso/ Nem poderei p...

A Tempo (5)

A tempo entrei no tempo,/ Sem tempo dele sairei:/ Homem moderno,/ Antigo serei./ Evito o inferno/ Contra tempo, eterno/ À paz que visei./ Com mais tempo/ Terei tempo:/ No fim dos tempos serei/ Como q...

Que Bem Sabe o Amor Constante (6)

Até no carro te canto,/ Fala a fala, seio a seio,/ Espantado de um encanto/ Que mais parece receio/ / De te perder à partida/ Pra te ganhar à chegada,/ Pois tu és a minha vida/ Na ida e volta arrisca...

Violada (7)

Possuíram-te nas ervas,/ Deitada ao comprido/ Ou lívida a pé:/ Do estupro conservas/ O sangue e o gemido/ Na morte da fé./ / Chegaste a cavalo/ Trémula de espanto:/ Esperavas levá-lo/ Com modos de am...

Já Velho e Doente (8)

«Seja a terra da Terceira/ A minha coberta de alma»,/ Disse eu na idade fagueira,/ Em que tudo é força e calma./ / Mas hoje, já velho e doente,/ Em que as almas não se cobrem,/ Hoje sim, peço seriame...

Um Dia é Pouco ao Pé de Margarida (9)

A nossa intimidade a três ou quatro é constrangida./ Tenho medo no ângor e uma urtiga no pé./ Um dia é pouco ao pé de Margarida:/ A ausência é menos sozinha,/ A muita companhia dá bandos longe. Até/ ...

O Poema em que te Busco é a Minha Rede (10)

O poema em que te busco é a minha rede,/ Bem mais de borboletas que de peixes,/ E é o copo em que te bebo: morro à sede/ Mas ainda és margarida e não-me-deixes/ E muito mais, no enumerar das coisas:/...

Quando Toda és Terra a Terra (11)

Marga, teu busto tufa,/ Dois gomos e véus de ilhal/ Palpitam palmo de gente/ Nesse tefe-tefe igual/ E há qualquer coisa de ardente/ Que se endireita e que rufa/ Nem tambor a general./ / Marga, teu pe...

Maio de Minha Mãe (12)

O primeiro de Maio de minha Mãe/ Não era social, mas de favas e giestas./ Uma cadeira de pau, flor dos dedos do Avô/ — Polimento, esquadria, engrade, olhá-la ao longe —/ Dava assento a Florália, o me...

O Futuro Perfeito (13)

À minha neta Anica/ / A neta explora-me os dentes,/ Penteia-me como quem carda./ Terra da sua experiência,/ Meu rosto diverte-a, parda/ Imagem dada à inocência./ / Finjo que lhe como os ded...

Pedra de Canto (14)

Ainda terás alento e pedra de canto,/ Mito de Pégaso, patada de sangue da mentira,/ Para cantar em sílabas ásperas o canto,/ De rima em -anto, o pranto,/ O amor, o apego, o sossego, a rima interna/ D...


Pesquisa

Arrumar os Mortos

É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno. Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, ...

A Poesia

... Quantas obras de arte... Já não cabem no mundo... Temos de as pendurar fora dos quartos... Quantos livros... Quantos livrecos... Quem será capaz de os ler?... Se fossem comestíveis... Se numa pan...
Inspirações

Vencer o Medo

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