Raúl Germano Brandão

Portugal
12 Mar 1867 // 5 Dez 1930
Escritor/Jornalista

És como o Ar que Respiro

Qual é a força extraordinária que possuis? — pergunto muitas vezes a mim mesmo. Dois ou três princípios cristãos inabaláveis — e por trás milhares de seres que desapareceram ignorados, cumprindo a vida ignorada. Nem sequer se debateram. Entregaram-se. Confiaram. A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os pássaros aquecem o ninho. Sua vida dá luz, para alumiar os outros. Foi assim com tão pequenos meios, que me ensinaste. Com uma palavra e mais nada, com um simples olhar, com silêncio e mais nada. Uma atitude fazia-me pensar. E mal sabes tu quando Os teus dedos ágeis trabalhavam a meu lado, teciam ao mesmo tempo o pano grosso de casa e a nossa vida espiritual.

E como tu milhares de seres têem cumprido a vida em silêncio, aceitando-a sem exageros. Nas mãos das mulheres até as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o pão, lançar a teia — assumem um carácter sagrado. Elas passam desconhecidas e dispõem dum poder extraordinário. Mantêem a vida ordenada com um sorriso tímido. A mulher está mais perto que nós da natureza e de Deus.

Cada vez me aproximo mais de ti. O que há de puro em mim a ti o devo. És limpidez e ternura.
Eu exagero sempre a dor, tu nunca te queixas. Andas nas pontas dos pés. Mal respiras — e estás sempre presente. Tens uma capacidade para a dor que eu não possuo.
Tudo em ti se faz naturalmente, tão naturalmente que ninguém dá por isso. A tua bondade não é um esforço. E é-te tão fácil partilhar a desgraça e as penas dos outros dos que se aproximam de ti!... Ninguém te vê e fazes-te sentir em toda a casa. Aquece-la. Estás em toda a parte, e ao mesmo tempo a meu lado. És como o ar que respiro.
Qual é a fonte escondida da tua vida, só o sei agora. Nunca pensas em ti — pensas sempre nos outros, ocupada num dever a cumprir, não como dever, mas como instintiva compreensão da Vida.

Já uma vez te propuz matarmo-nos ambos, para penetrarmos mais depressa noutro mundo que adivinho esplêndido. Matarmo-nos não por horror à vida, mas por amor à vida. A outra vida maior. E não só por isso: para ver a tua alma na sua completa nudez.

Nas caladas noites de inverno, quando despego o olhar dos papeis, encontro sempre os teus olhos que me envolvem de ternura. Isso e quasi nada — e revolve o mundo. É saudade, e a vida que passa e a morte que se aproxima, emquanto o tronco arde no lume, o pinheiro estala ou o carvalho amorroa. De fora vem o hálito da floresta e das águas. Mais silêncio... Surpreendo-te então a repetir o meu pensamento, ou é o teu que me acode ao mesmo tempo. Não fales! Outra figura transparece atrás da tua figura. Nesse momento até o lume parece encantado e ficas tão linda que antevejo a vida misteriosa que me fascina e deslumbra. Isto só dura um segundo. Mas basta às vezes que sorrias e é a tua alma que sorri, basta às vezes que não fales e é a tua alma que me fala! Nesse momento somos um ser: eu sou tu, tu és eu; tu sorris, eu sorrio... Então cai sobre nós o silêncio — e eu descobro o que só nos é dado ver depois da morte, a amplidão das almas, seu poder magnético e num deslumbramento, ao lado da existência pueril, a imensidade do universo e o infinito que nos rodeia e de que perdemos a sensação pelo hábito. A casa, que tem raizes de granito, voga no eter arrastada num turbilhão que me mete medo... Alguém nos vai bater à porta...

Alguém se aproxima pouco a pouco num cerco que se aperta e em passos tão leves que mal se ouvem... Rodeia-nos o silêncio vivo, alma do mundo, o silêncio que é talvez o que eu mais amo na aldeia, este silêncio perfumado que envolve a nossa casa na solidão tremenda da noite: mais perto de mim arfa alguma coisa de religioso e profundo: — sinto a Vida e a Morte. Sinto-as enquanto a última brasa se apaga e as tuas mãos se agarram às minhas mãos de velho.

Raul Brandão, in "Memórias (Dezembro 1924)"




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