Fiodor Dostoievski

Russia
11 Nov 1821 // 9 Fev 1881
Escritor

O Homem Irracional

Cubram-no de todos os bens terrenos, mergulhem-no na felicidade com a cabeça imersa de modo a só umas bolhas rebentarem à superfície; dêem-lhe uma prosperidade económica tal que não tenha mais nada que fazer senão dormir, comer doces e tratar da continuidade ininterrupta da história universal - então ele, o homem, mesmo assim, só por ingratidão, por maldade, far-vos-á uma pulhice qualquer. Arriscará até os doces e desejará propositadamente o mais prejudicial dos absurdos, o mais antieconómico disparate, unicamente para misturar com toda essa sensatez positiva o seu nocivo elemento fantástico. Desejará conservar precisamente os seus sonhos fantásticos, a sua estupidez mais ordinária, unicamente para confirmar a si mesmo (como se fosse assim tão indispensável) que as pessoas continuam a ser pessoas e não teclas de piano em que sejam as próprias leis da natureza a tocar, mas prometendo tocar a tal ponto que se tornará já impossível desejar qualquer coisa para além do calendário.
Mais ainda: mesmo que o homem se tornasse realmente uma tecla de piano, mesmo que tal facto lhe fosse provado por meio das ciências naturais e da matemática, não ganharia juízo, mas faria, de propósito, qualquer coisa contra, apenas por ingratidão; só para continuar na sua! Lançará pelo mundo uma maldição, e como só o homem sabe amaldiçoar (é o privilégio dele, e o que mais o diferencia dos outros animais), e apenas com uma maldição conseguirá o que quer, ou seja, convencer-se-á que é homem e não uma tecla de piano! Se disserem que também isso pode ser calculado pela tábua - o caos, as trevas, a maldição - e que a própria possibilidade de cálculo prévio fará parar tudo, e a razão vencerá - então o homem tornar-se-á louco por essa ocasião, só para não ficar subjugado à razão e poder continuar na sua! Tenho fé nisso, assumo a responsabilidade por isso, porque todo o assunto humano consiste, na realidade, em o homem provar a si mesmo, a cada instante, que é um homem e não um pistão!

Fiodor Dostoievski, in 'Cadernos do Subterrâneo'




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