O que eu penso é que a poesia exige uma certa transparência como o amor exige uma certa transparência e como a santidade exige uma certa transparência. São transparências de natureza diferente e, sobretudo, a poesia é uma transparência em relação ao Universo, o amor éuma transparência entre duas pessoas e a santidade é uma transparência total, como que em todos os planos.
Há uma noção de abismo que é imanente a toda a experiência humana. A Terra é uma bola suspensa no espaço segundo um equilíbrio que não dominamos. E eu sei que há abismo também na poesia. Mas esta muitas vezes funciona como esconjuro do mal e da sombra e tem uma dimensão catártica que talvez seja o que faz com que o medo não me assalte do mesmo modo. Com a prosa, surge uma dúvida dentro de nós. Não sabemos nunca se estamos a esconjurar, se a convocar. É uma espécie de jogo muito estranho. Porque há esta diferença, não sei bem. Mas é o que se passa comigo. A poesia e a prosa são duas navegações diferentes.
A poesia é necessária a este mundo moderno onde somos afligidos pelo medo e pela inquietude. A poesia tem as suas raízes na respiração humana - e o que seríamos se a nossa respiração fosse diminuída? A poesia é um acto de confiança - e quem sabe se a nossa inquietação não é devido a uma falta de confiança?
Nós temos que escutar aquela voz humana à qual chamamos poesia, aquela voz que está constantemente em perigo de ser extinguida por falta de amor, mas que está sempre a renascer.
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