A Crise
Quando toda a gente anda a dizer que tudo muda e muda mais depressa, o que me impressiona a mim é o pouco que no fundo Portugal mudou. A crise por que agora passamos lembra outras crises da mesma natureza no século XIX e no século XX com os mesmos furibundos protestos contra as despesas do Estado, contra o excesso de funcionários públicos, contra as clientelas e em geral contra a «roubalheira». Até se costumava dizer que o défice era o verdadeiro chefe da oposição (já para não falar nas dÃvidas que se iam sempre irresistivelmente acumulando). Porquê esta sina? Porque num paÃs pequeno, pobre e periférico a economia não crescia o suficiente nem com a rapidez suficiente para permitir a ascensão social dos filhos da classe média - e o Estado tinha por força de lhes fornecer um modo de vida. Tradicionalmente para «arrumar» um filho (e a palavra é reveladora) havia três grandes soluções: o exército, a Igreja e a administração. Mas como hoje não se conseguia nada sem o patrocÃnio de um partido ou de um protector influente no governo, com o tempo o exército e a Igreja deixaram de «arrumar» fosse quem fosse. Em contrapartida a administração do Estado, que não pára de crescer e de se atribuir novas funções, pode em certa medida absorver os milhares e milhares de criaturas sem propósito e sem educação que o sistema de ensino vai pondo no mercado. Só que o dinheiro para esta estranha caridade acaba por não chegar. Os contribuintes não são exactamente um poço sem fundo. E, pior ainda, o que o Estado gasta não se gasta em promover actividades privadas susceptÃveis de criar emprego. Por isso de quando em quando a crise volta, normalmente provocada por exigências do estrangeiro. E nós ficamos sem saber para onde nos virar.
27/01/2002
Vasco Pulido Valente, in 'De Mal a Pior'