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Nelson Rodrigues

Brasil
23 Ago 1912 // 21 Dez 1980
Jornalista/Dramaturgo

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Os Jovens sem Amor

Outro dia, aqui mesmo, fiz esta constatação nostálgica: - sumiu a «mulher fatal». Hoje, repito, a «mulher fatal» é mais antiga, mais obsoleta, mais defunta do que a primeira audição do Danúbio azul. Não há, em lugar nenhum do mundo, uma outra Mata Hari. Não sei se vocês conhecem a sua história e a sua lenda. No princípio do século, Mata Hari vivia ateando, em cada esquina, paixões e suicídios. O interessante é que nem sempre fora «fatal». Ou por outra: — passou a ser «fatal» a partir do momento em que o seu relações-públicas espalhou por todo o Velho Mundo: — «Tem um seio só.» Essa mutilação promocional foi sua glória fulminante. E não houve, até a Primeira Grande Guerra, uma «mulher fatal» tão bem-sucedida.

Foi invejada pelas concorrentes e, até, pela mulher honesta. Anos depois, era fuzilada como espiã. Mas, eis a verdade: - morreu sem pena de morrer, morreu sem saudade de si mesma. Para «fatal», a velhice, com suas varizes e sua asma, era pior do que o puro, simples e ainda promocional fuzilamento. Hoje, seria inviável uma Mata Hari — e explico.
A «mulher fatal» exige o homem que mata ou se mata. Em nossos dias, os suicidas e homicidas por amor só existem na manchete de O Dia e da Luta Democrática. Outro dia, dizia-me um psicanalista alarmado: — «Há uma massa de rapazes, de 18, 19, 20 anos, que não se interessa por mulher.» Como matar ou se matar, se o tédio começa antes do desejo, se o jovem esquece antes de amar?
Todavia, não desapareceu de todo a «mulher fatal». Ou antes: — alguém a substituiu, alguém tomou o seu lugar: — a grã-fina. Aí está a figura obsessiva do nosso tempo. (O que me pergunto é se a grã-fina é uma flor do subdesenvolvimento ou se todos os povos a têm.) Talvez lhe falte um pouco do patético, talvez lhe falte o fogo da morte.

Durante algum tempo vivia eu agarrado a esta ilusão: — as grã-finas não morrem. E imaginava que só morrem as da classe média. Lembro-me de uma fotografia de jornal, em cinco colunas. Era uma normalista. Estava na calçada, em todo o esplendor dos seus 17 anos. Linda, linda. E, de repente, um automóvel desgarra do asfalto, trepa no meio-fio e vem achatá-la contra o muro.
Morreu na hora, com o peito esmagado e o rosto intacto. Passou horas, morta, à espera da Perícia. Impossível ser mais bonita. Olhos entreabertos e uma expressão quase de euforia. Ao ver a fotografia, tive a sensação pueril, a sensação absurda de que só morrera porque era da classe média. Se fosse grã-fina, o automóvel a teria poupado.

Mais tarde, porém, houve um episódio que comoveu a cidade. Eis o caso: - certa grã-fina foi amada. Não sei se amou também. Só sei que viveu dois ou três meses de lua de mel. E, um dia, quis acabar. Talvez estivesse gostando de um outro, não sei. O rapaz foi de uma polidez exemplar: — «Se você quer assim, assim será.» Mas a convidou para o adeus. E a grã-fina foi ao último encontro.
Ele a recebeu com ardente humildade. Disse que a amava tanto como antes ou mais do que nunca. E começou a chorar. Ela teve, diante daquele pranto de homem, a frivolidade deliciosa e suicida de uma Maria Antonieta. Disse: - «Esquece, sim. Esquece.» Estendeu-lhe a mão, que ficou no ar. O rapaz tira o revólver, puxa o gatilho, uma, duas, três, quatro vezes. Quase sem espanto, ela foi varada de balas. No meio de uma constelação de estampidos, ainda sorria. Dobrou-se, cruzou os braços sobre o peito. E morreu sorrindo, sem tempo de corrigir o sorriso.

Alguém pode perguntar: - «E ele? E ele?» Não importa o que fez o assassino. Depois de matar, o criminoso se torna secundário, ou nulo, e repito: — some como se jamais tivesse existido. Tudo aconteceu num quarto. Talvez a grã-fina estivesse diante do espelho, recolocando um brinco. Não teve tempo nem para o espanto, nem para o medo, nem para o grito. Não, não estava diante do espelho. De pé, estendia-lhe a mão. Era o adeus. E não estava de costas.
No dia seguinte, eu lia tudo no jornal. E minha primeira reação foi, como já disse, de espanto infantil. Se fosse da classe média, alguém que morasse na rua Mariz e Barros ou Conde de Bonfim, o impacto seria menor. Mas era uma grã-fina, que morava ou na orla da Lagoa ou numa ladeira do Jardim Botânico. Com um sentimento de vergonha, entrei no seu velório.

Estava crispado como o criminoso que volta ao local do crime. Eu queria sentir pena, respeito, quase adoração, e o que havia em mim era uma curiosidade maligna. A morte da mulher bonita fascina qualquer um. E percebi que estavam lá, espichando o pescoço, sujeitos que não eram nem parentes, nem amigos, nem conhecidos. Vi uma senhora gorda, bexiguenta, esbugalhando-se para a linda morta.

Fizera-se um pavoroso alarido sobre a beleza da vítima E eu a olhei. Ao primeiro olhar, descobri toda a verdade: - não era bonita. A meu lado, a gorda já citada cochichava: — «Serena, serena.» Serena, sim, de uma serenidade apaixonada, uma ardente calma. Mas não era bonita. Muito mais linda era a normalista que foi esmagada contra o muro.

Morta, sem nenhum sortilégio da maquilagem, o rosto nu de pintura, era feia. O ser amado a matara por uma ilusão de beleza. Mas era a falsa bonita. Fingia-se de linda; e por isso tantos a desejaram. Só a morte soube olhar a grã-fina. (A mulher da classe média não é nada misteriosa: seus defeitos, seus encantos, são nítidos, são precisos. Ou é feia, ou bonita, ou simpática. Mas não faz, como a grã-fina, uma maravilhosa imitação de beleza.)

O povo desfilou até alta madrugada. Lembro-me de uma outra gorda, de filho de colo, que veio de Brás de Pina, Cordovil ou Encantado, ver a bonita morta. Todos queriam olhar uma Inês de Castro. E cada um, ao sair, sentia-se esbulhado de uma defunta ideal que não estava ali. A morte tirara a máscara de beleza.
Muitos anos depois, casei-me com uma grã-fina. De vez em quando digo a Lúcia: — «Você é a única grã-fina linda.» Sobre as outras, não tenho mais dúvidas. A partir da formosa assassinada, sei de toda a verdade. E, quando vejo uma grã-fina impressa, acho uma graça triste. Está ali fingindo beleza. Mas ela pode enganar o leitor, o marido, o Justino Martins, e a própria e obtusa lente de máquina fotográfica. Não enganará a morte, e repito: — a morte sabe que ela é uma falsa bonita, eternamente.

Nelson Rodrigues, in 'O Homem Fatal'




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