Anais Nin

Estados Unidos
21 Fev 1903 // 14 Jan 1977
Autora

Um Clímax Duplo

Meu Amor,

Hoje vou buscar as minhas pérolas! Vou já à loja de fotografias e terei os instantâneos para ti amanhã à noite. Estou livre amanhã à noite. Onde queres que te encontre?

A mulher do Allendy teve uma atitude desesperada, e ele deu um pulo até à Bretanha por uns tempos. Tivemos uma cena linda que te relatarei... Profundamente interessante... Aqui mesmo em Louveciennes, há uma hora. Então vou trabalhar noutras coisas. O teu livro incha dentro de mim como o meu próprio — mais jovialmente ainda do que o meu, porque o teu livro é para mim uma fecundação, ao passo que o meu é um acto de narcisismo. Eu digo: deixem uma mulher escrever livros, mas deixem-na acima de tudo permanecer fecundável por outros livros!

Entendes-me? Regozijo nos teus planos imensos, nas tuas ideias... Essas nossas conversas, Henry, como ressaltam, são tão firmes... Henry, nunca haverá momentos mortos, porque em nós ambos existe sempre movimento, renovação, surpresas. Nunca conheci a estagnação. Nem mesmo a introspecção tem sido uma experiência estática... Mesmo em nada leio maravilhas, e no mero acto de esburacar a terra, em vez de minas de ouro, consigo gerar entusiasmo. Entusiasmo, mudança, expansão, estão incrustados em mim como a cauda sulfurosa do pirilampo. E como brilha na vida nocturna! Pensa então, se isto é assim, o que encontro em ti, tu que és uma mina de ouro!

Henry, amo-te com uma percepção, um conhecimento de ti que te traz todo lá dentro como nunca te trouxeram, com toda a força da minha mente e da minha imaginação, para lá da do meu corpo. Amo-te duma maneira que a June pode voltar, o nosso amor pode ser destruído, e no entanto nada pode separar a fusão que já houve... Nem a June, nem o espaço, nem mil milhas, nem mesmo o ódio...

Alguma coisa foi iniciada como um mouvement perpetuel. Não penses que, quando te leio páginas amotinadas do meu diário, ignoro as profundidades — ontem a transição, o completar do círculo parecia-me belo em si, mais cheio do que algo que eu tenha imaginado. Uma espécie de clímax duplo, sempre. Entendes-me?

Anais Nin, in "Carta a Henry Miller (1932)"




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