Afonso Duarte

Portugal
1 Jan 1884 // 5 Mar 1958
Poeta

15 Poemas



Cabelos Brancos (1)

Cobrem-me as fontes já cabelos brancos,/ Não vou a festas. E não vou, não vou./ Vou para a aldeia, com os meus tamancos,/ Cuidar das hortas. E não vou, não vou./ / Cabelos brancos, vá, sejamos franco...

Riso (2)

Tive o jeito de rir, quando menino,/ Até beber as lágrimas choradas:/ Com carantonhas, gestos, desatino,/ Passou a nuvem e os pequenos nadas./ / A rir de escuridões, de encruzilhadas,/ Tornei-me afei...

Humana Condição (3)

Um sonhar-me distante, um longe incrível/ É agora o meu estado: Eu sonho o Espaço/ Que se fixa no mundo ao invisível/ Como se o mundo andasse por meu braço,/ / Existo além: Sou o animal temível/ De J...

Horas de Saudade (4)

Vou de luar em rosto, descontente:/ Meus olhos choram lágrimas de sal./ — Adeus, terras e moças do casal,/ — Adeus, ó coração da minha gente./ / A hora da saudade é uma serpente:/ Quero falar, não po...

Cantigas (5)

1/ / Não há pressas, nem demoras,/ No coração das cantigas;/ Nem os relógios dão horas/ Quando cantam raparigas./ / 2/ / Como algum dia ando hoje;/ Sou o mesmo apaixonado;/ Quem disser que o tempo fo...

Hora Mística (6)

Noite caindo ... Céu de fogo e flores./ Voz de Crepúsculo exalando cores,/ O céu vai cheio de Deus e de harmonia./ Silêncio ... Eis-me rezando aos fins do dia./ / Névoa de luz criando imagens na água...

Erros Meus a que Chamarei Virtude (7)

Erros meus a que chamarei virtude,/ Por bem vos quero, e morro despedido/ Sem amor, sem saúde, o chão perdido,/ Erros meus a que chamarei virtude./ / A terra cultivei, amargo e rude,/ No sonho de mel...

Provençal (8)

Em um solar de algum dia/ Cheiinho de alma e valia,/ Foi ali/ Que ao gosto de olhos a vi/ / Como dantes inda vasto/ Agora/ Não tinha pombas nem mel./ E à opulência de outrora,/ Esmoronado e já gasto,...

Noite do Roubo (9)

A quem foram roubar os pobres trapos:/ A mim, que sou humilde pobrezinho?/ Olhem bem que o valor desses farrapos/ Está em ter minha avó fiado o linho./ / Ó rocas a fiar, contos de fadas!/ Eu tinha-lh...

Amor (10)

Por teu ventre começa a minha vida,/ Por teus olhos a estrela que me guia./ Amor, que Deus te salve! — Ave-Maria/ Cheia de Graça ó Bem-Aparecida./ / Por meu e por teu verbo de harmonia/ Se fará etern...

Natal (11)

Turvou-se de penumbra o dia cedo;/ Nem o sol apertou no meu beiral!/ Que longas horas de Jesus! Natal.../ E o cepo a arder nas cinzas do brasedo.../ / E o lar da casa, os corações aos dobres,/ É um p...

In Extremis (12)

1/ / Só a criança conhece a Eternidade/ Que é inocência do desconhecido./ E o que me dá saudade/ É havê-la em mim perdido./ / Outra herança de tudo que não sou/ Podeis levá-la! Faça-se a vontade:/ Qu...

Paisagem Única (13)

Olhas-me tu: e nos teus olhos vejo/ Que eu sou apenas quem se vê: assim/ Tu tanto me entregaste ao teu desejo/ Que é nos teus olhos que eu me vejo a mim./ / Em ti, que bem meu corpo se acomoda!/ Ah! ...

Inscrição (14)

Dos vastos horizontes me invocaram,/ Noutras formas artísticas imersos,/ Revoltos pensamentos que formaram/ Todo o amor e pureza dos meus versos./ / Melodias que os ventos orquestraram/ Foram verbo d...

Carta a um «Amor» (15)

Recordo, Margarida, as tardes quando/ Cata no Marão o Sol de Julho!/ Meu ranchinho de rolas rorolando,/ Vós éreis meu orgulho./ / O ar como um veludo, os ares tão macios,/ Ó tardes do jardim! à fonte...


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