Alexandre O'Neill

Portugal
19 Dez 1924 // 21 Ago 1986
Poeta

15 Poemas



Amigo (1)

Mal nos conhecemos/ Inaugurámos a palavra «amigo»./ / «Amigo» é um sorriso/ De boca em boca,/ Um olhar bem limpo,/ Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,/ Um coração pronto a pulsar/ Na nossa mão!/...

Há Palavras que Nos Beijam (2)

Há palavras que nos beijam/ Como se tivessem boca./ Palavras de amor, de esperança,/ De imenso amor, de esperança louca./ / Palavras nuas que beijas/ Quando a noite perde o rosto;/ Palavras que se re...

O Beijo (3)

Congresso de gaivotas neste céu/ Como uma tampa azul cobrindo o Tejo./ Querela de aves, pios, escarcéu./ Ainda palpitante voa um beijo./ / Donde teria vindo! (Não é meu...)/ De algum quarto perdido n...

O Amor é o Amor (4)

O amor é o amor — e depois?!/ Vamos ficar os dois/ a imaginar, a imaginar?.../ / O meu peito contra o teu peito,/ cortando o mar, cortando o ar./ Num leito/ há todo o espaço para amar!/ / Na nossa ca...

O Poema Pouco Original do Medo (5)

O medo vai ter tudo/ pernas/ ambulâncias/ e o luxo blindado/ de alguns automóveis/ / Vai ter olhos onde ninguém os veja/ mãozinhas cautelosas/ enredos quase inocentes/ ouvidos não só nas paredes/ mas...

Os Amantes de Novembro (6)

Ruas e ruas dos amantes/ Sem um quarto para o amor/ Amantes são sempre extravagantes/ E ao frio também faz calor/ / Pobres amantes escorraçados/ Dum tempo sem amor nenhum/ Coitados tão engalfinhados/...

Bom e Expressivo (7)

Acaba mal o teu verso,/ mas fá-lo com um desígnio:/ é um mal que não é mal,/ é lutar contra o bonito./ / Vai-me a essas rimas que/ tão bem desfecham e que/ são o pão de ló dos tolos/ e torce-lhes o p...

Aos Vindouros, se os Houver... (8)

Vós, que trabalhais só duas horas/ a ver trabalhar a cibernética,/ que não deixais o átomo a desoras/ na gandaia, pois tendes uma ética;/ / que do amor sabeis o ponto e a vírgula/ e vos engalfinhais ...

Portugal (9)

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,/ linda vista para o mar,/ Minho verde, Algarve de cal,/ jerico rapando o espinhaço da terra,/ surdo e miudinho,/ moinho a braços com um vento/ testarudo, mas em...

Um Adeus Português (10)

Nos teus olhos altamente perigosos/ vigora ainda o mais rigoroso amor/ a luz de ombros puros e a sombra/ de uma angústia já purificada/ / Não tu não podias ficar presa comigo/ à roda em que apodreço/...

Mesa dos Sonhos (11)

Ao lado do homem vou crescendo/ / Defendo-me da morte quando dou/ Meu corpo ao seu desejo violento/ E lhe devoro o corpo lentamente/ / Mesa dos sonhos no meu corpo vivem/ Todas as formas e começam/ T...

Auto-Retrato (12)

O'Neill (Alexandre), moreno português,/ cabelo asa de corvo; da angústia da cara,/ nariguete que sobrepuja de través/ a ferida desdenhosa e não cicatrizada./ Se a visagem de tal sujeito é o que vês/ ...

E de Novo, Lisboa... (13)

E de novo, Lisboa, te remancho,/ numa deriva de quem tudo olha/ de viés: esvaído, o boi no gancho,/ ou o outro vermelho que te molha./ / Sangue na serradura ou na calçada,/ que mais faz se é de homem...

Toma lá Cinco! (14)

Encolhes os ombros, mas o tempo passa.../ Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!/ / Um dente que estava são e agora não,/ Um cabelo que ainda ontem preto era,/ Dentro do peito um outro, sempre mais velho ...

A Morte, esse Lugar-Comum (15)

É trivial a morte e há muito se sabe/ fazer - e muito a tempo! - o trivial./ Se não fui eu quem veio no jornal,/ foi uma tosse a menos na cidade.../ / A caminho do verme, uma beldade/ — não dirias as...


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