David Mourão-Ferreira

Portugal
1927 // 1996
Poeta/Escritor

20 Poemas



Ternura (1)

Desvio dos teus ombros o lençol,/ que é feito de ternura amarrotada,/ da frescura que vem depois do sol,/ quando depois do sol não vem mais nada.../ / Olho a roupa no chão: que tempestade!/ Há restos...

Noite Apressada (2)

Era uma noite apressada/ depois de um dia tão lento./ Era uma rosa encarnada/ aberta nesse momento./ Era uma boca fechada/ sob a mordaça de um lenço./ Era afinal quase nada,/ e tudo parecia imenso!/ ...

Presídio (3)

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo/ Que dizer do pescoço, às vezes mármore,/ às vezes linho, lago, tronco de árvore,/ nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?/ / E o ventre, inconsistente como...

E por Vezes (4)

E por vezes as noites duram meses/ E por vezes os meses oceanos/ E por vezes os braços que apertamos/ nunca mais são os mesmos E por vezes/ / encontramos de nós em poucos meses/ o que a noite nos...

Labirinto ou não Foi Nada (5)

Talvez houvesse uma flor/ aberta na tua mão./ Podia ter sido amor,/ e foi apenas traição./ / É tão negro o labirinto/ que vai dar à tua rua .../ Ai de mim, que nem pressinto/ a cor dos ombros da Lua!...

O Corpo Os Corpos (6)

O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos/ que somados seriam nossos corpos/ implantam-se no espaço novos corpos/ ora mais ora menos que dois corpos/ / Que escorpião de súbito estes c...

Paisagem (7)

Desejei-te pinheiro à beira-mar/ para fixar o teu perfil exacto./ / Desejei-te encerrada num retrato/ para poder-te contemplar./ / Desejei que tu fosses sombra e folhas/ no limite sereno dessa praia....

Praia do Esquecimento (8)

Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada./ A minha vida nem consente/ rumor de gente/ na praia desolada./ / Apenas decisão de esquecimento:/ mas só neste momento eu a descubro/ como a um fruto rub...

Elegia do Ciúme (9)

A tua morte, que me importa,/ se o meu desejo não morreu?/ Sonho contigo, virgem morta,/ e assim consigo (mas que importa?)/ possuir em sonho quem morreu./ / Sonho contigo em sobressalto,/ não vás fu...

Silêncio (10)

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;/ redoma de cristal este silêncio imposto./ Que lívido museu! Velado, sepulcral./ Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!/ / Um hálito de medo embaciand...

A Secreta Viagem (11)

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,/ ficámos nós os dois, parados, de mão dada.../ Como podem só dois governar um navio?/ Melhor é desistir e não fazermos nada!/ / Sem um gesto sequer, de súbito e...

Ladainha dos Póstumos Natais (12)

Há-de vir um Natal e será o primeiro/ em que se veja à mesa o meu lugar vazio/ / Há-de vir um Natal e será o primeiro/ em que hão-de me lembrar de modo menos nítido/ / Há-de vir um Natal e será o pri...

Soneto do Cativo (13)

Se é sem dúvida Amor esta explosão/ de tantas sensações contraditórias;/ a sórdida mistura das memórias,/ tão longe da verdade e da invenção;/ / o espelho deformante; a profusão/ de frases insensatas...

Do Tempo ao Coração (14)

E volto a murmurar Do cântico de amor/ gerado na Suméria às novas europutas/ Do muito que me dás ao muito que não dou/ mas que sempre conservo entre as coisas mais puras/ / De uma genebra a m...

Canção Amarga (15)

Que importa o gesto não ser bem/ o gesto grácil que terias?/ — Importa amar, sem ver a quem.../ Ser mau ou bom, conforme os dias./ / Agora, tu, só entrevista,/ quantas imagens me trouxeste!/ Mas é p...

A Guerra (16)

E tropeçavam todos nalgum vulto,/ quantos iam, febris, para morrer:/ era o passado, o seu passado — um vulto/ de esfinge ou de mulher./ / Caíam como heróis os que não o eram,/ pesados de infortúnio e...

Rua de Roma (17)

Quero uma rua de Roma/ com seus rubros com seus ocres/ com essa igreja barroca/ essa fonte esse quiosque/ aquele pátio na sombra/ ao longe a luz de um zimbório/ mais o cimo dessa torre/ que não tem r...

Memória (18)

Tudo que sou, no imaginado/ silêncio hostil que me rodeia,/ é o epitáfio de um pecado/ que foi gravado sobre a areia./ / O mar levou toda a lembrança./ Agora sei que me detesto:/ da minha vida de cri...

Serenata do Adolescente (19)

Que doentia claridade/ a que me invade e me obsidia,/ durante a noite e à luz da tarde,/ à luz da tarde, à luz do dia!/ Que doentia aquela grade/ de insone e ténue claridade,/ sob a avançada gelosia!...

Elegia de Natal (20)

Era também de noite Era também Dezembro/ Vieram-me dizer que o meu irmão nascera/ Já não sei afinal se o recordo ou se penso/ que estou a recordá-lo à força de o dizerem/ / Mas o teu berço foi o ...


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