David Mourão-Ferreira

Portugal
24 Fev 1927 // 16 Jun 1996
Poeta/Escritor

24 Poemas

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Ternura (1)

Desvio dos teus ombros o lençol,/ que é feito de ternura amarrotada,/ da frescura que vem depois do sol,/ quando depois do sol não vem mais nada.../ / Olho a roupa no chão: que tempestade!/ Há restos...

Noite Apressada (2)

Era uma noite apressada/ depois de um dia tão lento./ Era uma rosa encarnada/ aberta nesse momento./ Era uma boca fechada/ sob a mordaça de um lenço./ Era afinal quase nada,/ e tudo parecia imenso!/ ...

E por Vezes (3)

E por vezes as noites duram meses/ E por vezes os meses oceanos/ E por vezes os braços que apertamos/ nunca mais são os mesmos E por vezes/ / encontramos de nós em poucos meses/ o que a noite nos...

Ladainha dos Póstumos Natais (4)

Há-de vir um Natal e será o primeiro/ em que se veja à mesa o meu lugar vazio/ / Há-de vir um Natal e será o primeiro/ em que hão-de me lembrar de modo menos nítido/ / Há-de vir um Natal e será o pri...

Presídio (5)

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo/ Que dizer do pescoço, às vezes mármore,/ às vezes linho, lago, tronco de árvore,/ nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?/ / E o ventre, inconsistente como...

Natal, e não Dezembro (6)

Entremos, apressados, friorentos,/ numa gruta, no bojo de um navio,/ num presépio, num prédio, num presídio,/ no prédio que amanhã for demolido... / Entremos, inseguros, mas entremos. / Entremos, e d...

Labirinto ou não Foi Nada (7)

Talvez houvesse uma flor/ aberta na tua mão./ Podia ter sido amor,/ e foi apenas traição./ / É tão negro o labirinto/ que vai dar à tua rua .../ Ai de mim, que nem pressinto/ a cor dos ombros da Lua!...

O Corpo Os Corpos (8)

O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos/ que somados seriam nossos corpos/ implantam-se no espaço novos corpos/ ora mais ora menos que dois corpos/ / Que escorpião de súbito estes c...

Paisagem (9)

Desejei-te pinheiro à beira-mar/ para fixar o teu perfil exacto./ / Desejei-te encerrada num retrato/ para poder-te contemplar./ / Desejei que tu fosses sombra e folhas/ no limite sereno dessa praia....

Silêncio (10)

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal;/ redoma de cristal este silêncio imposto./ Que lívido museu! Velado, sepulcral./ Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto!/ / Um hálito de medo embaciand...
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