Miguel Torga

Portugal
12 Ago 1907 // 17 Jan 1995
Escritor/Poeta

43 Poemas

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Mãe (1)

Mãe:/ Que desgraça na vida aconteceu,/ Que ficaste insensível e gelada?/ Que todo o teu perfil se endureceu/ Numa linha severa e desenhada?/ / Como as estátuas, que são gente nossa/ Cansada de palavr...

Só eu Sinto Bater-lhe o Coração (2)

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo./ (Alguém há-de guardar este tesoiro!)/ E, como dorme, afago-lhe o cabelo,/ Que mesmo adormecido é fino e loiro./ / Só eu sinto bater-lhe o coração,/ Vejo que son...

Conquista (3)

Livre não sou, que nem a própria vida/ Mo consente./ Mas a minha aguerrida/ Teimosia/ É quebrar dia a dia/ Um grilhão da corrente./ / Livre não sou, mas quero a liberdade./ Trago-a dentro de mim como...

Liberdade (4)

— Liberdade, que estais no céu.../ Rezava o padre-nosso que sabia,/ A pedir-te, humildemente,/ O pio de cada dia./ Mas a tua bondade omnipotente/ Nem me ouvia./ / — Liberdade, que estais na terra.....

Poema Melancólico a não sei que Mulher (5)

Dei-te os dias, as horas e os minutos/ Destes anos de vida que passaram;/ Nos meus versos ficaram/ Imagens que são máscaras anónimas/ Do teu rosto proibido;/ A fome insatisfeita que senti/ Era de ti,...

Dies Irae (6)

Apetece cantar, mas ninguém canta. / Apetece chorar, mas ninguém chora./ Um fantasma levanta/ A mão do medo sobre a nossa hora./ / Apetece gritar, mas ninguém grita./ Apetece fugir, mas ninguém foge....

Viagem (7)

É o vento que me leva./ O vento lusitano./ É este sopro humano/ Universal/ Que enfuna a inquietação de Portugal./ É esta fúria de loucura mansa/ Que tudo alcança/ Sem alcançar./ Que vai de céu em céu...

Portugal (8)

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,/ E torno mais real o rosto que te dou./ Mostro aos olhos que não te desfigura/ Quem te desfigurou./ Criatura da tua criatura,/ Serás sempre o que sou./ / E eu...

Esperança (9)

Tantas formas revestes, e nenhuma/ Me satisfaz!/ Vens às vezes no amor, e quase te acredito./ Mas todo o amor é um grito/ Desesperado/ Que apenas ouve o eco.../ Peco/ Por absurdo humano:/ Quero não s...

À Beleza (10)

Não tens corpo, nem pátria, nem família,/ Não te curvas ao jugo dos tiranos./ Não tens preço na terra dos humanos,/ Nem o tempo te rói./ És a essência dos anos,/ O que vem e o que foi./ / És a carne ...

Quase um Poema de Amor (11)

Há muito tempo já que não escrevo um poema/ De amor./ E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!/ A nossa natureza/ Lusitana/ Tem essa humana/ Graça/ Feiticeira/ De tornar de cristal/ A mais sentime...

Canção para a Minha Mãe (12)

E sem um gesto, sem um não, partias!/ Assim a luz eterna se extinguia!/ Sem um adeus, sequer, te despedias,/ Atraiçoando a fé que nos unia!/ / Terra lavrada e quente,/ Regaço de um poeta criador,/ Ia...

Ajuda (13)

Porque o amor é simples,/ Vale a pena colhê-lo./ Nasce em qualquer degredo,/ Cria-se em qualquer chão./ Anda, não tenhas medo!/ Não deixes sem amor o coração!/ / Miguel Torga, in 'Diário (1945)'

Inocência (14)

Vou aqui como um anjo, e carregado/ De crimes!/ Com asas de poeta voa-se no céu.../ De tudo me redimes,/ Penitência/ De ser artista!/ Nada sei,/ Nada valho,/ Nada faço,/ E abre-se em mim a força dest...

Frustração (15)

Foi bonito/ O meu sonho de amor./ Floriram em redor/ Todos os campos em pousio./ Um sol de Abril brilhou em pleno estio,/ Lavado e promissor./ Só que não houve frutos/ Dessa primavera./ A vida disse ...

Aos Poetas (16)

Somos nós/ As humanas cigarras./ Nós,/ Desde o tempo de Esopo conhecidos.../ Nós,/ Preguiçosos insectos perseguidos./ / Somos nós os ridículos comparsas/ Da fábula burguesa da formiga./ Nós, a tribo ...

Amor (17)

A jovem deusa passa/ Com véus discretos sobre a virgindade;/ Olha e não olha, como a mocidade;/ E um jovem deus pressente aquela graça./ / Depois, a vide do desejo enlaça/ Numa só volta a dupla divin...

Identidade (18)

Matei a lua e o luar difuso./ Quero os versos de ferro e de cimento./ E em vez de rimas, uso/ As consonâncias que há no sofrimento./ / Universal e aberto, o meu instinto acode/ A todo o coração que s...

Vida (19)

Do que a vida ê capaz!/ A força dum alento verdadeiro!/ O que um dedal de seiva faz/ A rasgar o seu negro cativeiro !/ / Ser!/ Parece uma renúncia que ali vai,/ — E é um carvalho a nascer/ Da bolota ...

Tempo (20)

Tempo — definição da angústia./ Pudesse ao menos eu agrilhoar-te/ Ao coração pulsátil dum poema!/ Era o devir eterno em harmonia./ Mas foges das vogais, como a frescura/ Da tinta com que escrevo./ Fi...
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