Vasco Graça Moura

Portugal
3 Jan 1942 // 27 Abr 2014
Escritor/Poeta/Ensaísta/Tradutor/Político

13 Poemas



soneto do amor e da morte (1)

quando eu morrer murmura esta canção/ que escrevo para ti. quando eu morrer/ fica junto de mim, não queiras ver/ as aves pardas do anoitecer/ a revoar na minha solidão./ / quando eu morrer segura a m...

lamento para a língua portuguesa (2)

não és mais do que as outras, mas és nossa,/ e crescemos em ti. nem se imagina/ que alguma vez uma outra língua possa/ pôr-te incolor, ou inodora, insossa,/ ser remédio brutal, mera aspirina,/ ou tir...

lâmpada votiva (3)

1. teve longa agonia a minha mãe/ / teve longa agonia a minha mãe:/ seu ser tornou-se um puro sofrimento/ e a sua voz apenas um lamento/ sombrio e lancinante, mas ninguém/ / podia fazer nada, ...

blues da morte de amor (4)

já ninguém morre de amor, eu uma vez/ andei lá perto, estive mesmo quase,/ era um tempo de humores bem sacudidos,/ depressões sincopadas, bem graves, minha querida,/ mas afinal não morri, como se vê,...

insinceridade (5)

quis-nos aos dois enlaçados/ meu amor ao lusco-fusco/ mas sem saber o que busco:/ há poentes desolados/ e o vento às vezes é brusco/ / nem o cheiro a maresia/ a rebate nas marés/ na costa de lés a lé...

o suporte da música (6)

o suporte da música pode ser a relação/ entre um homem e uma mulher, a pauta/ dos seus gestos tocando-se, ou dos seus/ olhares encontrando-se, ou das suas/ / vogais adivinhando-se abertas e recíproca...

as meninas (7)

as minhas filhas nadam. a mais nova/ leva nos braços bóias pequeninas,/ a outra dá um salto e põe à prova/ o corpo esguio, as longas pernas finas:/ / entre risadas como serpentinas,/ vai como a formo...

princípio do prazer (8)

à sua volta os pombos cor de lava/ nos arabescos pretos do basalto/ e gente, muita gente que passava/ e se detinha a olhá-la em sobressalto/ / no seu olhar havia uma promessa/ nos seus quadris dançav...

no obscuro desejo (9)

no obscuro desejo,/ no incerto silêncio,/ nos vagares repetidos,/ na súbita canção/ / que nasce como a sombra/ do dia agonizante,/ quando empalidece/ o exterior das coisas,/ / e quando não se sabe/ s...

espaço interior (10)

quando o poema/ são restos do naufrágio/ do espaço interior/ numa furtiva luz/ desesperada,/ / resvalando até/ à superfície,/ lisa, firme, compacta,/ das coisas que todos/ os dias agarramos,/ / quand...

para uma canção de embalar (11)

embalo a minha filha joana que acordou num berreiro./ a casa está às escuras, vou passando com cuidado/ para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina/ que se calou mas está de olho muito abe...

a fava (12)

espero que me calhe aquela fava / que é costume meter no bolo-rei: / quer dizer que o comi, que o partilhei/ no natal com quem mais o partilhava/ / numa ordem das coisas cuja lei / de afectos e memór...

lamento por diotima (13)

o que vamos fazer amanhã/ neste caso de amor desesperado?/ ouvir música romântica/ ou trepar pelas paredes acima?/ / amarfanhar-nos numa cadeira/ ou ficar fixamente diante/ de um copo de vinho ou de ...


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