David Mourão-Ferreira

Portugal
24 Fev 1927 // 16 Jun 1996
Poeta/Escritor

Amor e Liberdade

Por ser o amor em si mesmo um absoluto (ou tender para ele) e por em si mesmo constituir uma liberdade (ou a ela aspirar), nada de mais nocivo nem até de mais oposto à sua essência, à sua existência, à sua vivência, que a ilusão de uma liberdade absoluta. Como adiante se verá, não há nada de paradoxal em semelhante afirmação. Segundo efectivamente me parece, no relativo da liberdade de que usufrui e no contingente do absoluto que se lhe permite é que justamente o amor se constrói (ou tenta construir-se) quer como absoluto quer como liberdade: esta a grandeza do seu desígnio, esta a precariedade do seu destino.

Na prática, aliás, são de várias ordens os condicionalismos — genéticos, fisiológicos, psíquicos, políticos, sociais — que em verdade conferem o estatuto de mera utopia ao conceito de liberdade absoluta. Não só para os místicos o corpo é entendido como um cárcere: também os amantes, por experiência própria, sabem demasiado bem como são estreitas e de número limitado as portas de entrada, ou de saída, de que tal cárcere dispõe. Extraordinário se torna, apesar de tudo, que com tão reduzido número de portas (e as mais delas de utilização restrita) consigam assim mesmo os cár-ceres-corpos entre si comunicar do modo muito satisfatório como às vezes comunicam. E, mais extraordinário ainda, que essas mesmas portas, não obstante a respectiva escassez, continuamente venham suscitando, ao longo da história da poesia universal, hinos de incomparável vibração, cânticos de desgarrado êxtase. (…)
(1990)

David Mourão-Ferreira, in 'Terraço Aberto'




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