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Herman Hesse

Alemanha
2 Jul 1877 // 9 Ago 1962
Escritor

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Criar ou Viver

Era ultrajante a maneira como a vida zombava de uma pessoa: dava vontade de rir e chorar ao mesmo tempo! Quem vivesse e se entregasse ao jogo dos sentidos, saciando-se no peito da velha mãe Eva, tinha garantido o prazer, mesmo o mais requintado e secreto, mas deixava de estar protegido contra a efemeridade da existência - era-se algo assim como um míscaro na floresta, hoje exuberante de cores e amanhã apodrecido. Quem se defendesse e enclausurasse numa oficina, procurando construir um monumento à vida volátil, tinha de abdicar dela para se tornar um mero instrumento da própria visão; estava-se então ao serviço do imperecível, mas definhando e perdendo a liberdade, a plenitude e o prazer de viver. (...) E, afinal, a vida no seu todo só fazia sentido se ambas as porfias se alcançassem, se a vida não fosse dividida por aquela estéril incompatibilidade! Criar, sem para isso ter de pagar o preço da vida! Viver, sem ter de prescindir da nobreza do ato criador! Não seria possível? Talvez houvesse pessoas capazes de o fazer. Talvez houvesse maridos e pais de família que, mesmo assumindo a fidelidade, não perdessem o gozo dos sentidos. Talvez existissem sedentários a quem a falta de liberdade e de perigo não fizesse definhar o coração. Talvez. Conhecer alguém assim, isso nunca tinha conhecido. No fundo, toda a existência parecia basear-se na dicotomia, na oposição dos contrários: ou se era homem ou mulher, vagabundo ou pequeno-burguês, guiado pelo intelecto ou pelos sentidos - nunca e em lado algum o inspirar e o expirar, a masculinidade e a feminilidade, a liberdade e a ordem, o instinto e o espírito podiam ser experimentados em simultâneo; sempre se pagava um com a perda do outro e sempre o aspeto que se perdia era tão importante e desejável como o que se ganhava! Nisso, as mulheres talvez tivessem a vida mais facilitada. Nelas a natureza encarregara-se de fazer com que o prazer gerasse espontaneamente o seu fruto, transformando o deleite amoroso numa criança. No homem, essa fecundidade primordial dera lugar à eterna nostalgia. Seria Deus que tudo assim criara mau e hostil, estaria ele a rir-se malignamente da sua própria criação? Não, o Deus que criara as corças e os gamos, os peixes e os pássaros, a floresta, as flores e as estações do ano não podia ser mau. Mas a cisão atravessava toda a sua Criação, quer fosse porque ela, a Criação, falhara ou era imperfeita, quer fosse porque Deus acalentasse uns quaisquer desígnios insondáveis que justificassem essa lacuna e essa nostalgia, ou porque nisso consistia precisamente a semente do inimigo, o pecado original. Mas como poderia ser pecado essa nostalgia e essa insatisfação? Não era dela que provinha toda a beleza e toda a santidade criada pelo homem e devolvida a Deus em ação de graças?

Hermann Hesse, in 'Narciso e Goldmund'




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