Henry Louis Mencken

Estados Unidos
12 Set 1880 // 29 Jan 1956
Escritor

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar à maioria dos outros mamíferos, conferiu-lhe sem dúvida o seu actual domínio sobre a superfície da Terra – um domínio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microscópicos. Este pensamento abstracto é o responsável pela sua sensação de superioridade e pelo que, sob esta sensação, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que é frequentemente subestimado é o facto de que a capacidade de desempenhar um acto não é, de forma alguma, sinónima de seu exercício salubre. É fácil observar que a maior parte do pensamento do homem é estúpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclusões apropriadas nas questões que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a noções tão ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que é sólido e verdadeiro; prefere tudo que é especioso e falso. Se uma grande nação moderna se confrontar com dois problemas antagónicos – um deles baseado em argumentos prováveis e racionais, o outro disparando em direcção ao erro mais óbvio - ela, quase invariavelmente, adoptará este último. Isto aplica-se à política, que consiste inteiramente numa sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que existem apenas como palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a qualquer declaração lógica.

Acontece o mesmo na religião, que, como a poesia, não passa de uma partitura orquestrada para negar as mais óbvias realidades. E é assim em quase todos os campos do pensamento. As ideias que mais rapidamente conquistam a raça, levantam os mais vibrantes entusiasmos e são defendidas com a maior tenacidade, são justamente as mais insanas. Isto pode ser provado desde que o primeiro gorila “avançado” vestiu cuecas, franziu a testa e saiu por aí a dar conferências. E será assim até que os poderes superiores, finalmente cansados desta farsa, exterminem a raça com um gigantesco e definitivo cocktail de fogo e gases mortais.

Não surpreende que a imaginação do homem seja a culpada por esta singular fraqueza. Tal imaginação, eu diria, foi o que lhe permitiu dar o primeiro salto sobre os seus colegas primatas. Permitiu-lhe visualizar uma condição de existência melhor do que a que ele vinha a experimentar e, pouco a pouco, tornou-o capaz de retocar o quadro com uma certa realidade crua. E até hoje ele continua da mesma forma. Quer dizer, ele pensa em qualquer coisa que gostaria de ser ou ter, algo bem melhor do que outro já é ou já tem, e, então, por um processo custoso e difícil de erros e acertos, gradualmente chega ao que quer. Durante o processo, muitas vezes é severamente punido pelo seu descontentamento com as sagradas ordens de Deus. Rói as unhas, coça o queixo, tropeça e cai – e, finalmente, o prémio que ele tanto buscava derrete nas suas mãos. Mas, aos poucos, ele segue em frente ou, na pior das hipóteses, passa o bastão aos seus herdeiros ou sucessores. Pouco a pouco, ele asfalta o caminho para a sua perna restante e conquista belos brinquedos para a mão que lhe resta, com os quais brinca, e permite ao seu olho ou ouvido sobrevivente desfrutar aquela delícia.

Infelizmente, nunca se contenta com este processo lento e sanguinário. Está sempre em busca de algo cada vez mais distante. Vive a imaginar coisas além do arco-íris. Este corpo de imagens constitui o seu stock de doces credulidades, fé e confiança – em suma, o seu fardo de erros. E este fardo de erros é o que distingue o homem, mesmo acima da sua capacidade de chorar, do seu talento para mentir, da sua excessiva hipocrisia e bazófia, relativamente a todas as outras ordens de mamíferos. O homem é o pirata par excellence, um ingénuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crónica e inevitavelmente enganado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo – pelo seu incomparável talento para pesquisar e adoptar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro.

A capacidade para discernir a verdade essencial, de facto, é tão rara nos homens quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas. O homem capaz desse discernimento é de uma qualidade mais do que extraordinária – mesmo, talvez, que seja profundamente mórbido. Demonstre uma nova verdade lastreada de qualquer plausibilidade natural para uma multidão, e nem uma pessoa em 10 mil suspeitará da sua existência, e nem uma pessoa em 100 mil irá adoptá-la sem feroz resistência. Todas as verdades duradouras que se impuseram ao mundo no decorrer da História foram mais combatidas do que a varíola, e todo o indivíduo que as recebeu bem e lutou por elas foi, absolutamente sem excepção, denunciado e punido como um inimigo da espécie. Talvez o “absolutamente sem excepção” seja um exagero. Eu o substituiria por “cinco ou seis excepções”. Mas quem seriam essas cinco ou seis excepções? Deixo a resposta a cargo de vocês; eu próprio não conheço nenhuma. Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos.

Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de palmas e torna-se o dono da verdade; para as grandes massas, ele é o bom ideal da humanidade. Dê um giro pelos últimos mil anos da História e descobrirá que 90% dos ídolos populares do mundo – não me refiro aos heróis de pequenas seitas, mas a ídolos mundialmente populares – não passaram de casos baratos de nonsense. Tem sido assim em política, religião e em qualquer outro departamento do pensamento humano. Mesmo tais casos já enfrentaram alguma oposição, uma vez ou outra, de críticos que os denunciaram como charlatães e os refutaram assim que abriam a boca. Mas, ao lado de cada um deles, havia a titânica força da credulidade humana, e isto bastava para destruir os seus inimigos e estabelecer a sua imortalidade.

Henry Mencken, in 'O Livro dos Insultos (1920)'




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