David Hume

Escócia
7 Mai 1711 // 25 Ago 1776
Filósofo/Historiador/Ensaísta

A Diferença entre Ficção e Crença

Não há nada mais livre do que a imaginação humana; embora não possa ultrapassar o stock primitivo de ideias fornecidas pelos sentidos externos e internos, ela tem poder ilimitado para misturar, combinar, separar e dividir estas ideias em todas as variedades da ficção e da fantasia imaginativa e novelesca. Ela pode inventar uma série de eventos com toda a aparência de realidade, pode atribuir-lhes um tempo e um lugar particulares, concebê-los como existentes e des­crevê-los com todos os pormenores que correspondem a um facto histórico, no qual ela acredita com a máxima certeza. Em que consiste, pois, a diferença entre tal ficção e a crença?
Ela não se localiza sim­plesmente numa ideia particular anexada a uma concepção que obtém o nosso assentimento, e que não se encontra em nenhuma ficção conhecida. Pois, como o espírito tem autoridade sobre todas as suas ideias, poderia voluntariamente anexar esta ideia particular a uma ficção e, por conseguinte, seria capaz de acreditar no que lhe agradasse, embora se opondo a tudo que encontramos na experiência diária. Po­demos, quando pensamos, juntar a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo, mas não está em nosso poder acreditar que semelhante animal tenha alguma vez existido.
Conclui-se, portanto, que a diferença entre a ficção e a crença se localiza em algum sentimento ou maneira de sentir, anexado à última e não à primeira, que não depende da vontade e não pode ser mani­pulado a gosto.
É preciso que a natureza a desperte como os outros sentimentos; é preciso que ela nasça da situação particular em que o espírito se encontra em cada conjuntura particular. Todas as vezes que um objeto se apresenta à memória ou aos sentidos, pela força do costume, a imaginação é levada imediatamente a conceber o objeto que lhe está habitualmente unido; esta concepção é acompanhada por uma maneira de sentir ou sentimento, diferente dos vagos devaneios da fantasia. Eis toda a natureza da crença.

Visto que a nossa mais firme crença sobre qualquer facto sempre admite uma concepção que lhe é contrária, não haveria, portanto, nenhuma diferença entre o nosso assentimento ou rejeição de qualquer concepção, se não houvesse algum sentimento distinguindo uma da outra. Se vejo, por exemplo, uma bola de bilhar deslizar em direção de outra numa mesa polida, posso imaginar com clareza que uma parará ao chocar-se com a outra. Esta concepção não implica contradição, porém sinto-a muito diferente da concepção pela qual me represento o impulso e a comunicação do movimento de uma bola a outra.
         
Se tentássemos uma definição deste sentimento, veríamos, talvez, que se trata de tarefa muito difícil, senão impossível; da mesma ma­neira como se tentássemos definir a sensação de frio ou a paixão de cólera a uma criatura que nunca teve a experiência destes sentimentos. Crença é o nome verdadeiro e próprio desta maneira de sentir; nin­guém jamais se encontra em dificuldade para saber o significado da­quele termo, porque cada um está, em todo o momento, consciente do sentimento que representa. Sem dúvida, não seria impróprio tentar uma descrição deste sentimento esperando chegar, por este meio, a algumas analogias que poderiam fornecer uma explicação mais per­feita. Digo, pois, que a crença não é nada senão uma concepção de um objecto mais vivo, mais vivido, mais forte, mais firme e mais estável que aquela que a imaginação, por si só, seria capaz de obter. Uso esta variedade de termos, embora tão pouco filosófica, com a única intenção de exprimir este acto de espírito que nos revela realidades, ou que se considera como tal, mais presentes a nós que as ficções, que as faz pensar mais no pensamento e lhes dá uma influência superior às pai­xões e à imaginação. Desde que concordamos no tocante à coisa, é desnecessário discutir acerca dos termos.

A imaginação governa todas as suas ideias e pode uni-las, misturá-las e variá-las de todas as formas possíveis. Pode conceber objectos fictícios em todas as situações de espaço e de tempo. Pode colocá-los de certa maneira diante dos nossos olhos com as suas próprias cores, exactamente como se houvessem exis­tido. Mas, como é impossível que essa faculdade da imaginação possa jamais, por si mesma, converter-se em crença, é evidente que a crença não consiste na natureza particular ou na ordem da ideias, mas na maneira como o espírito as concebe e as sente. Confesso que é impos­sível explicar com perfeição este sentimento ou esta maneira de con­ceber. Podemos usar palavras que expressam algo parecido. Mas o seu nome verdadeiro e próprio, como já dissemos, é crença: termo que cada um compreende suficientemente na vida corrente.

Em filosofia, não podemos ir além da seguinte afirmação: crença é qualquer coisa sentida pelo espírito, que distingue as ideias dos juízos das ficções da imaginação. Ela dá-lhes maior peso e influência; faz parecê-las de maior importância; reforça-as no espírito e estabelece-as como prin­cípios directivos das nossas ações. Ouço agora, por exemplo, a voz de uma pessoa conhecida, e o som parece vir do quarto contíguo. Esta impressão dos meus sentidos conduz imediatamente o meu pensamento à pessoa e, ao mesmo tempo, a todos os objectos circundantes. Eu pinto-os para mim mesmo como existentes actualmente e com as próprias qualidades e relações que já sabia que possuíam. Estas ideias apo­deram-se do meu espírito mais depressa que as ideias de um castelo encantado. Sinto-as de modo muito diferente, e a sua influência é bem maior, em todos os pontos de vista, tanto para produzir prazer e dor como alegria e tristeza.

David Hume, in 'Investigação Acerca do Entendimento Humano'




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