Rainer Maria Rilke

Alemanha
4 Dez 1875 // 29 Dez 1926
Poeta

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Volta Depressa

Recebi a tua carta, a tua querida carta, de que cada palavra me faz bem, me eleva como uma vaga, com a mesma força e o mesmo som, que me rodeia de jardins e me coroa de céus, que me torna feliz e capaz de te dizer o que se debatia absurdamente na minha última e penosa carta: que te desejo ardentemente, que foi uma angústia indizível viver estes dias sem uma notícia depois daquele adeus rápido, inesperado, em meio das impressões quase hostis desta penosa cidade, onde não existe uma coisa através da qual possas, de longe, falar-me. Daí essa horrível carta do outro dia, ainda não distanciada da despedida da solidão nova e intolerável em que vivia, e que foi apenas uma maneira de te atormentar, na minha desordem e na minha desorientação, qualquer coisa que só poderia parecer-te estranha na bela plenitude que a tua vida reencontrou no seio das novas condições.
Hoje, é-me quase insuportável pensar que, no grande concerto que te rodeia e onde tu encontras frágeis vozes de crianças, a minha voz terá sido a única estranha e banal, a voz do mundo entre as palavras e os silêncios sagrados de que se tecem os teus dias. Foi de facto assim? Tenho medo disso. Que fazer? Poderei conseguir que esta carta domine o rumor da precedente? O eco das tuas palavras soam nela, enquanto a outra foi construída sobre o teu afastamento e o teu silêncio, e desde que recebi notícias, já não tem nenhum direito à existência... mas nem por isso deixa de existir, não é verdade?
Queres dizer-me uma coisa? Que tudo está bem, apesar de tudo, como escreves; que nenhum esquilo morreu por causa dessa carta e que nada ficou sombrio, e sobretudo que nada ficou na sombra depois dela.
Sabes, falei-te muitas vezes dos meus esquilos, daqueles que criei, ainda criança, em Itália e para os quais comprava compridas trelas para que a sua liberdade alcançasse o cimo das árvores. Talvez fosse injusto impor, pouco que fosse, a minha vontade à sua vida ágil (pelo menos quando eram adultos e não tinham já necessidade de mim), mas era também sua vaga intenção continuar a contar comigo: muitas vezes, com efeito, seguiam-me aos saltos como se a trela lhes faltasse.
Vais faltar-lhes muito, tu, a esses bons animaizinhos. Estarão suficientemente crescidos para correr sem ti os bosques e o mundo? Na ponte dos abetos de Rongas, lembrar-se-ão por vezes da sua infância, e num ramo que oscila ainda do impulso do salto, pensarão em ti. E mesmo que ficassem apenas três esquilos de olhos demasiado pequenos para que aí pudesses encontrar lugar, nalguma parte deles haveria, contudo, espaço suficiente para que habitasses a sua vida. Meu amor.
Volta depressa, vem logo que possas deixá-los. Leva-os para a floresta, e se for a tua voz a explicar-lhes a sua beleza, serão os mais felizes dos esquilos e essa será a mais bela das florestas.
Peço-te, vem domingo. Não podes imaginar até que ponto os dias são longos em Petersburgo. E, no entanto, não são dias cheios. A vida aqui é apenas uma série de deslocações incómodas pelas razões mais fúteis. Caminha-se ou viaja-se de carro a todo o momento, e onde quer que se chegue, começa por sentir-se antes de mais o próprio cansaço. Por causa disso, até os mais longos trajectos se fazem quase sempre em vão. Mas nem por isso deixei de reparar que teremos ainda algumas coisas muito belas para vermos quando regressares. No fundo, há duas semanas, apenas estas palavras: no teu regresso, está o complemento de todos os meus pensamentos. —
Gostei também da noite de lua, entre quarta e quinta-feira. Alcancei já muito tarde a margem do Neva, no meu local preferido, diante da Catedral de Sant'Isaac, onde a cidade se revela ao mesmo tempo mais simples e maior. Lá, também eu (e de modo completamente inesperado) me senti sereno, feliz e grave, como agora ao receber a tua carta. Apresso-me a enviar-te estas linhas, para que aquilo que me digas na segunda-feira (e enviar-me-ás algumas palavras pelo teu irmão, não é verdade? basta uma ou duas, compreendê-las-ei todas!) seja uma resposta a isto, a esta interrogação: és feliz? Eu sou, para lá de tudo o que me atormenta; fundamentalmente, confiadamente, invencivelmente feliz. E agradeço-te.
Volta depressa!

Rainer Maria Rilke, in 'Carta a Lou Andreas-Salomé, 11 de Agosto de 1900'




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