Mário de Sá-Carneiro

Portugal
1890 // 1916
Poeta/Contista/Ficcionista

22 Poemas

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Como Eu não Possuo (1)

Olho em volta de mim. Todos possuem -/ Um afecto, um sorriso ou um abraço./ Só para mim as ânsias se diluem/ E não possuo mesmo quando enlaço./ / Roça por mim, em longe, a teoria/ Dos espasmos golfad...

Quási (2)

Um pouco mais de sol - eu era brasa,/ Um pouco mais de azul - eu era além./ Para atingir, faltou-me um golpe d'asa.../ Se ao menos eu permanecesse àquem.../ / Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído/...

Escavação (3)

Numa ânsia de ter alguma cousa,/ Divago por mim mesmo a procurar,/ Desço-me todo, em vão, sem nada achar,/ E a minh'alma perdida não repousa./ / Nada tendo, decido-me a criar:/ Brando a espada: sou l...

Dispersão (4)

Perdi-me dentro de mim/ Porque eu era labirinto,/ E hoje, quando me sinto,/ É com saudades de mim./ / Passei pela minha vida/ Um astro doido a sonhar./ Na ânsia de ultrapassar,/ Nem dei pela minha vi...

Vontade de Dormir (5)

Fios d'ouro puxam por mim/ A soerguer-me na poeira -/ Cada um para o seu fim,/ Cada um para o seu norte.../ / . . . . . . . . . . . . . . ./ / - Ai que saudade da morte.../ / . . . . . . . . . . . . ...

7 (6)

Eu não sou eu nem sou o outro,/ Sou qualquer coisa de intermédio:/ Pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o Outro./ / Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'...

Alcool (7)

Guilhotinas, pelouros e castelos/ Resvalam longamente em procissão;/ Volteiam-me crepúsculos amarelos,/ Mordidos, doentios de roxidão./ / Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,/ Grifam-me sons de côr...

Além-Tédio (8)

Nada me expira já, nada me vive -/ Nem a tristeza nem as horas belas./ De as não ter e de nunca vir a tê-las,/ Fartam-me até as coisas que não tive./ / Como eu quisera, emfim de alma esquecida,/ Dorm...

A Inegualável (9)

Ai, como eu te queria toda de violetas/ E flébil de setim.../ Teus dedos longos, de marfim,/ Que os sombreassem joias pretas.../ / E tão febril e delicada/ Que não podesses dar um passo -/ Sonhando e...

Partida (10)

Ao ver escoar-se a vida humanamente/ Em suas águas certas, eu hesito,/ E detenho-me às vezes na torrente/ Das coisas geniais em que medito./ / Afronta-me um desejo de fugir/ Ao mistério que é meu e m...

Inter-Sonho (11)

Numa incerta melodia/ Tôda a minh'alma se esconde/ Reminiscencias de Aonde/ Perturbam-me em nostalgia.../ / Manhã d'armas! Manhã d'armas!/ Romaria! Romaria!/ / . . . . . . . . . . . . . . ./ / Tactei...

A Queda (12)

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,/ Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la/ E giro até partir... Mas tudo me resvala/ Em bruma e sonolência./ / Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de o...

Salomé (13)

Insónia rôxa. A luz a virgular-se em mêdo,/ Luz morta de luar, mais Alma do que a lua.../ Ela dança, ela range. A carne, alcool de nua,/ Alastra-se pra mim num espasmo de segrêdo.../ / Tudo é caprich...

Vislumbre (14)

A horas flébeis, outonais -/ Por magoados fins de dia -/ A minha Alma é água fria/ Em ânforas d'Ouro... entre cristais.../ / Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'...

Apoteose (15)

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro/ Dormindo fôgo, incerto, longemente.../ Tudo se me igualou num sonho rente,/ E em metade de mim hoje só móro.../ / São tristezas de bronze as que inda choro -...

Estátua Falsa (16)

Só de ouro falso os meus olhos se douram;/ Sou esfinge sem mistério no poente./ A tristeza das coisas que não foram/ Na minha'alma desceu veladamente./ / Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,/ Go...

Distante Melodia (17)

Num sonho d'Iris, morto a ouro e brasa,/ Vem-me lembranças doutro Tempo azul/ Que me oscilava entre véus de tule -/ Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa./ / Então os meus sentidos eram côres,/ Nascia...

16 (18)

Esta inconstancia de mim próprio em vibração/ É que me ha de transpôr às zonas intermédias,/ E seguirei entre cristais de inquietação,/ A retinir, a ondular... Soltas as rédeas,/ Meus sonhos, leões d...

Sugestão (19)

As companheiras que não tive,/ Sinto-as chorar por mim, veladas,/ Ao pôr do sol, pelos jardins.../ Na sua mágoa azul revive/ A minha dôr de mãos finadas/ Sobre setins.../ / Mário de Sá-Carneiro, i...

Rodopio (20)

Volteiam dentro de mim,/ Em rodopio, em novelos,/ Milagres, uivos, castelos,/ Forcas de luz, pesadelos,/ Altas tôrres de marfim./ / Ascendem hélices, rastros.../ Mais longe coam-me sois;/ Há promontó...
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