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Manuel Bandeira

Brasil
19 Abr 1886 // 13 Out 1968
Poeta / Professor / Tradutor

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Poética

Estou farto do lirismo comedido
do lirismo comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
   [protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
   [cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Iodas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifílitico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si
   [mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
   [exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
      [maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira, in 'Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro, 1986'




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