Katherine Mansfield

Nova Zelândia
14 Out 1888 // 9 Jan 1923
Escritora

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O que é Amar Assim!

Meu amor e meu querido,
Passam dez minutos das oito. Devo dizer-te o quanto te amo às oito e dez de domingo, noite de 27 de Janeiro de 1918.
Estive todo o dia dentro de casa (excepto quando fui colocar a tua carta) e sinto-me muito descansada. A Juliette voltou de uma nova excursão pelo país, com íris azuis — lembras-te de como eram lindas as que cresciam naquela pequena casa com a torre com grades rodeada de pedras? — e todas as variedades e tipos de doces e junquilhos cheirosos... O quarto é muito quente. Tenho uma mão-cheia de fogo, e as poucas e pequenas chamas dançam na lenha e não se decidem ataca-la... Ali vai um comboio. Agora está tudo novamente calmo, excepto a minha guarda. Olho para o ponteiro dos minutos e penso na figura que farei de mim própria quando estiver, de facto, a vir para casa contigo. Como me sentarei na carruagem do comboio e colocarei o velho relógio no meu colo, fingindo cobri-lo com um livro — mas não lendo ou olhando para o livro, precipitando-me apenas para o relógio com o meu olhar ansioso e fazendo-o, simplesmente, andar mais depressa.
Nesta noite, o meu amor por ti é tão profundo e afectuoso que parece estar também fora de mim. Calo-me rapidamente, como um pequeno lago abraçado por montanhas grandiosas, poderias ver-me lá em baixo, no fundo e a brilhar — e insondável, meu querido. Poderias deixar o teu coração cair em mim e nunca o ouvirias tocar no fundo. Amo-te — Amo-te — Boa noite.
Oh, Bogey, o que é amar assim!

Katherine Mansfield, in 'Carta a John Middleton Murry, 27 de Janeiro de 1918'




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