Katherine Mansfield

Nova Zelândia
14 Out 1888 // 9 Jan 1923
Escritora

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Sou Tua para Sempre

Meu querido
Não penses, por encontrares estas linhas no teu livro privado, que invadi o teu espaço. Sabes que não o fiz — e onde é que eu poderia deixar uma carta de amor? Pois desejo escrever-te uma carta de amor esta noite. Tens tudo a ver comigo — pareço respirar-te — ouvir-te — sinto-te em mim e parte de mim — O que faço aqui? Estás ausente — vi-te no comboio, na estação, a passar, sentado a conversar à luz de um candeeiro, a cumprimentar pessoas — a lavares as tuas mãos — E aqui estou eu — na tua tenda — sentada à tua mesa. Há algumas pétalas de goiveiro na mesa e um fósforo usado, um pincel azul e um Magdeburgische Zeitung. Estou em casa como eles.
Quando o anoitecer chegou — seguindo pelo jardim silencioso — cobrindo as janelas cegas — o meu primeiro e último terror começou — estava eu a fazer algum café na cozinha. Foi tão violento, tão assustador, que pousei a caneca do café — e, simplesmente, corri — corri para fora do estúdio, e rua acima, com a minha mala debaixo de um braço e um bloco de papel e uma caneta debaixo do outro. Senti que se conseguisse chegar aqui e encontrar Mrs. ***, estaria 'a salvo' — encontrei-a e acendi o teu gás, olhei preocupada para o teu relógio — puxei as tuas cortinas — e abracei o teu casaco preto antes de me sentar — não mais assustada. Não fiques chateado comigo, Bogey — ça a étè plus fort que moi... É por isso que estou aqui.
Quando vieste tomar chá esta tarde, pegaste num brioche, partiste-o ao meio e tiraste o pedaço interior com dois dedos. Fazes sempre isso com bolas, tortas ou com um pedaço de pão — É a forma como gostas — a tua cabeça a levar-te um pouco para o mesmo lado...
Quando abriste a tua mala, vi o interior antigo e felpudo, e vi um livro de francês e um pente, nada arrumados — 'Tig. Só tenho 3 lenços' — Por que me será essa memória tão querida?... Na noite passada, houve um momento antes de ires para a cama. Ficaste parado, completamente nu, um pouco inclinado para a frente — a falar. Foi apenas por um instante. Eu vi-te — amei-te tanto — amei o teu corpo com tanta ternura — Ah, meu querido — E não estou agora a pensar em 'paixão'. Não, estou a pensar naquela outra coisa que me faz sentir que cada centímetro do teu corpo é tão precioso para mim. Os teus ombros macios — a tua pele quente e suave, as tuas orelhas, frias como o são as conchas — as tuas longas pernas e os teus pés, que eu adoro prender com os meus pés — o sentir a tua barriga — e as tuas esbeltas e jovens costas — Mesmo por debaixo daquele osso saliente na parte de trás do teu pescoço, tens um pequeno sinal. E, em parte, porque somos jovens que sinto este afecto — adoro a tua jovialidade — Não suportaria que fosse tocada sequer por um vento frio se eu fosse o Senhor.
Nós também, sabes, temos tudo pela frente, e faremos grandes coisas — tenho uma fé absoluta em nós — e tão perfeito é o meu amor por ti que sou, como era dantes, ainda, silenciosa mesmo em relação à minha alma. Não quero ninguém para meu amado e meu amigo que não sejas tu, e não serei fiel a ninguém que não tu.
Sou tua para sempre.

Katherine Mansfield, in 'Carta a John Middleton Murry, 18 de Maio de 1917'




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